Muito macho!

 

O Manuel, Nelo para a malta, quase no fim da casa dos trinta, impõe-se, onde quer que entre, ou saia, pela boa figura, cujo relevo abdominal começa a preocupá-lo secretamente, embora ele prefira acreditar que é status de fartura na mesa e um pé de meia no banco, símbolo dum ócio bem bebido, de trabalho bem feito e muito suado, porque homem que é homem, tem que chegar à sua idade com uma família contente e uma amante satisfeita, tudo sincronizado na mais perfeita harmonia.

À mulher que muito ama, pessoa decente e merecedora do estatuto, dá a casa a comida e a roupa lavada, embora, a confeção destas duas últimas estejam por sua conta, e ainda, muita liberdade, pois ela é de confiança, de modo que, ela gere como entende o dinheirinho que ele lhe deixa para a semana, assim como as refeições e a lida doméstica. Às vezes intervém, mas só quando é absolutamente necessário, e, mesmo assim, em coisas que a mulher não tem habilidade ou força para fazer, como sejam mudar as lâmpadas, desentupir o ralo da banheira, ou dar uma “abanadela” na diretora da escola dos putos. Outras vezes, o Nelo, em dias estipulados, mesmo que pareçam ao acaso, dá-lhe um beijo fora do contexto dos seus deveres de esposo, os quais cumpre escrupulosamente, em verdade se diga, o que muito a satisfaz, o beijo, está visto, pois os deveres são deveres. A mulher só lhe tem dado alegrias, para além de dois filhos que são o seu orgulho e a luz dos seus olhos, por isso, o Nelo tem muito prazer em lhe proporcionar uma vida boa. O Nelo sabe que a mulher é muito feliz, pois não faz nada, está todo o dia em casa; só tem que tratar do lar, das roupas, das refeições, da educação dos filhos, das compras e do marido, quando ele, por ventura, está em casa.

Aos filhos, que adora, dá tudo o que pode, dentro de uma certa rigidez, é certo, pois os garotos têm de ter rédea curta, mas, nunca deixou de ir com eles ao futebol uma vez por ano, nem de os levar a ver os avós no Natal. Os rapazes têm boa cabeça para a escola, e a mulher trata da parte cultural, levando-os ao parque, aos eventos escolares e desportivos, e ainda, aos teatros, que é para eles se habituarem às representações da vida.

A amante do Nelo também vive feliz, pois ele tem o cuidado de a levar, em dias certos, para jantar fora, espairecer, beber umas bejecas e, claro, terem os seus momentos de intimidade, devaneios e loucuras, que são o alimento da alma. O Nelo também tem muito orgulho na amante, que é uma rapariga alegre mas decente, pouco exigente, um perfume aqui, uma flores ali, mais umas poucas de dezenas de euros semanais, para ajudar nas despesas de casa, nada incomportável; é um tanto vistosa, é certo, ri muito alto, é verdade, mas que importância tem isso, se os outros cobiçam, mas ele é que come?

 

Uma Garrafinha Cheia de Nada

Tenho uma garrafinha de cristal muito elegante e delicada. Ela está cheia de Nada.

É linda a minha garrafinha cheia de Nada. Umas vezes é cor de fogo, outras azul com nuvens brancas. Tem gravada uma roseira brava que, ora dá rosas vermelhas de sangue, ora lhe crescem umas brancas de neve.

A rolha é em forma de lágrima, mas não chora. É uma rolha sorridente, colorida como o arco-íris.

Há quem pense que a minha garrafinha está cheia de Tudo, mas é ilusão, ela é uma garrafinha cheia de Nada. Se estivesse cheia de Tudo não era uma garrafinha, era um frasco alto ou um pote bojudo cheio de Tudo. É que o horizonte do Tudo e do Nada estão na imaginação. No que quisermos lá meter. Na garrafinha cheia de Nada. Continuar a ler

A Insurreição

Hoje, quando saí de casa por volta das 7:45h, não chovia. O céu estava cinzento, mas as nuvens iam altas, por isso era possível que nem chovesse. Após esta edificante apreciação meteorológica que fiz de mim para mim, tive a certeza que alguns pensamentos são de uma inutilidade confrangedora. Então lá liguei o carro e fiz-me à estrada, para deixar a minha filha na escola a tempo e horas.
De regresso a casa, estacionei, abri a bagageira e tirei lá de dentro um velho anoraque que vesti de seguida. Fechei a porta, tranquei o carro e iniciei a minha caminhada. Pelo canto do olho olhei para a paragem do autocarro que se encontrava a cerca de vinte e cinco metros. Vi que o monstro de sete cabeças já lá estava à espera do seu transporte, um pouco afastado do resguardo, por sinal. Comecei a andar, passei pelo monstrengo e nem sequer olhei para ele. Estava zangada. Muito zangada. Furiosa. Continuar a ler

A Serventia do Tapete

- É um infeliz, é o que tu és! Nem para tapete serves! – Disse aquela mulher de rosto suíno e porte de bulldozer. Na boca fina escorriam-lhe uns fios de fel, fluido verde, que aparece de vez em quando nos donos da verdade e do pequenino mundo que rodeia o seu umbigo.
O rapaz franzino, que caminhava ao seu lado, encolhia-se dentro do blusão impermeável tentando fintar as palavras daquela bola-de-berlim, de modo a não ser atingido por algum bocado de creme bilioso. Se alguma daquelas palavras letais o atingisse, era certo e sabido que ele seria esmagado, imobilizado, aniquilado, quiçá morto, por tamanho desprezo e ódio.

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O Milagre de S. Valentim

Dia de S. Valentim

- Sabeis, minha esposa, que vossa filha Mariana disse na minha cara que só casaria por amor? Tendes que educá-la melhor e fazer-lhe ver que essa postura não é própria de uma donzela. – Sentenciou Damião, enquanto a mulher socava a massa para fazer o pão.

- Tendes de ter paciência Damião, então não vedes como os tempos estão a mudar? – Disse Beatriz não parando um momento de amassar. Olhou ternamente para o marido, que estava sentado em frente à lareira, beberricando vinho numa malga de madeira finamente esculpida. Era uma peça muito bonita, que tinha vindo do oriente pelas mãos de seu irmão Bartolomeu.

- Mas de que mudanças falais? – Exasperou-se Damião. – Ela casará com quem eu lhe disser, tal como nós casamos. Dizei-me Beatriz, precisámos nós de amor para nos respeitarmos, termos filhos e labutar? Ela casará com o filho do Noronha. Já tenho tudo pensado. Continuar a ler