
Pintura por Christophe Vacher
Dulce acordou sozinha e sobressaltou-se. A cama onde dormia há quinze anos, assemelhava-se a um mar frio e silencioso, as pequenas ondas do lençol engoliram o turbilhão de sentimentos que a paralisavam. Deixou-se afundar em lágrimas.
Pegou no telefone e marcou um número. Do outro lado ouviu-se o toque de chamar, mas ninguém a atendeu. Numa voz trémula e incaracterística deixou uma mensagem de voz, “Bom dia, só queria saber se estás bem.”
Não era a primeira vez que Paulo dormia fora de casa. Ela sempre aceitou as suas justificações e acreditou nelas. Mas agora estava demasiado frágil, angustiada e deprimida. Desempregada há mais de um ano e sem perspectivas de um futuro promissor, arrasada porque não conseguia compensar a sua dependência económica com um eficaz desempenho doméstico, Dulce limita-se a fazer as refeições e a tratar da filha de sete anos. Continuar a ler