O Vento

Pintura por Christophe Vacher

Dulce acordou sozinha e sobressaltou-se. A cama onde dormia há quinze anos, assemelhava-se a um mar frio e silencioso, as pequenas ondas do lençol engoliram o turbilhão de sentimentos que a paralisavam. Deixou-se afundar em lágrimas.

Pegou no telefone e marcou um número. Do outro lado ouviu-se o toque de chamar, mas ninguém a atendeu. Numa voz trémula e incaracterística deixou uma mensagem de voz, “Bom dia, só queria saber se estás bem.”

Não era a primeira vez que Paulo dormia fora de casa. Ela sempre aceitou as suas justificações e acreditou nelas. Mas agora estava demasiado frágil, angustiada e deprimida. Desempregada há mais de um ano e sem perspectivas de um futuro promissor, arrasada porque não conseguia compensar a sua dependência económica com um eficaz desempenho doméstico, Dulce limita-se a fazer as refeições e a tratar da filha de sete anos.

Olhou à sua volta e viu uma casa sem brilho nem alegria, desarrumada e suja. As roupas, para lavar e passar a ferro acumulavam-se em pilhas, muito para além do tolerável. Mas ela não tinha energia, faltava-lhe a vontade e a motivação. De braços caídos, arrastou-se até ao quarto da filha, arrependida por ter deixado a mensagem no telemóvel do marido. Ele já tinha deixado bem claro, outro dia, que não valia a pena ela telefonar quando ele saísse com os amigos, a não ser por um motivo válido. Por motivo válido, entendia ele, algum acidente com a filha. Mas Dulce não podia deixar de o fazer, e se ele não estivesse bem? Se tivesse tido um acidente qualquer e precisasse dela? Afastou a ideia e condenou-se por ser tão ingénua. É claro que o marido não precisava dela.

A pequena ainda dormia, tão serena e bela no seu sono. Era a visão daquele anjo que lhe dava a força necessária para continuar a deambular sem destino, dentro da prisão de onde não ousava sair. Tinha medo. Tinha medo da rua e das pessoas. Sentia em cada olhar que cruzava o seu, uma critica muda e medonha. Ocorreu-lhe se teria alma. Talvez tivesse tido uma, em tempos, mas até a sua alma tinha partido à procura de um corpo mais dinâmico e empreendedor. Este pensamento deixou-a mais serena, compreendia agora aquele enorme vazio e inércia dentro dela.

Fechou a porta do quarto da filha devagarinho, para não a acordar. Foi até à cozinha e comeu sem prazer. Bebeu café e fumou um cigarro. Depois olhou demoradamente para a roupa já seca, em cima da máquina de lavar. Ficou ali muito tempo de olhos vazios, sem conseguir tomar uma decisão. Lá fora o vento assobiava uma canção avassaladora que falava das trevas e de um mundo subterrâneo, incompreensível para Dulce. Uma canção sem luz. Talvez a sua alma tivesse sido arrastada para as profundezas da terra e precisasse da sua ajuda.

Invadiu-a uma enorme saudade de se sentir abraçada e acarinhada. Incondicionalmente. Até há uns anos atrás era assim. Durante anos sentiu-se amada e querida. Agora tudo tinha mudado. O vento continuava a cantar a sua canção, e Dulce ficou atenta às suas palavras. Palavras estranhas e envolventes, cantadas numa língua antiga, apenas compreendida pelas velhas árvores da floresta. Uma língua mágica e hipnótica.

A porta da rua abriu-se e Paulo entrou. Desculpou-se e foi para o quarto. Ela continuou no mesmo lugar. Parada, em frente à janela da cozinha. Ouvia o vento e tentava perceber a sua mensagem. Não conseguia traduzir em palavras aquela música agreste e revoltada, mas compreendeu o seu significado. Subiu o parapeito da janela e voou para as entranhas daquele sussurro tenebroso. Dulce sorriu feliz. Iria procurar a sua alma.

Conto por Luísa L.

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6 thoughts on “O Vento

  1. Muito bom Luísa

    Estas histórias são mais frequentes do que se imagina.

    As pessoas põem fim à vida porque esta deixa de fazer sentido. Vão-se afundando, perdendo o amor-próprio, sem vontade de lutar, sem objectivos. Por vezes nem o amor pelos filhos as detém e acabam por cometer loucuras.
    Parabéns pelo texto

    Abs

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  2. Acho que muita história, infelizmente, termina assim. E por total incapacidade de comunicação, alias, de comunhão, entre todos os personagens envolvidos. O que é uma pena. Normalmente, são as pessoas mais sensíveis que partem. Aquelas que poderiam mudar a rudeza do mundo, se ouvissem um só palavra na hora certa.

    Muito bom o teu texto, Luísa. Melhor do que isso, talvez a palavra certa, na hora certa para alguém que passe por aqui.

    Beijos

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  3. Absorví cada linha daquela vida repleta de amargura, desesperança.
    Pena que nem a filha conseguiu lhe retirar desse mundo entristecido e sem amor….

    Não esperava este fim, te confesso. Talvez se eu fosse o autor buscaria de alguma forma retomar o diálogo com meu marido, procuraria descobrir aonde poderia estar a renovação nessa relação…

    Mas, enfim, às vezes a falta de pessoas sensíveis que olhem por estas almas depressivas desencadeia um fim como este.

    beijos e gostei muito da crônica ou conto.
    Maria Marçal – Porto Alegre – RS

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  4. Oi Luísa.

    Quando não assumimos a autoria de nossa vida e terceirizamos o êxito de nossas expectativas de felicidade, realizações… Agendamos desditas como essa. Ébrias de desilusões, as pessoas desencontram na morte o fim de suas desventuras. Superlativam a dor, descobrindo que a vida continua e que não podem fugir de si mesmas, do julgo de suas consciências.

    Um abração.

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  5. Pingback: O Vento « companhia dos fieis

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