Início » ...em forma de Conto » O Vestido Negro

O Vestido Negro

Fotografia de Jean-Loup Sieff

O despertador tocou. Marta levantou-se, e, enquanto o seu cérebro se adaptava à realidade, passou pelos quartos dos filhos para acordá-los. A sua filha resmungou um “só mais um bocadinho” e os rapazes nem se mexeram. Ligou o rádio no quarto da filha, para ela não voltar a adormecer, e abriu a janela do outro quarto.

Entrou na casa de banho e tomou um duche rápido. Vestiu o roupão à pressa e correu para a cozinha onde pôs tudo a jeito para o pequeno-almoço. Voltou ao quarto dos filhos e destapou o mais velho, que protestou. Começou a vestir o mais novo, que, ainda a dormir, chorou porque não queria usar a camisola interior; ela acalmou-o e de seguida foram os dois para a casa de banho onde Marta o ajudou a lavar a cara e os dentes. Voltou a chamar o filho mais velho e verificou a mochila do pequeno. Estava tudo em ordem. O rapaz mais velho levantou-se e foi para a casa de banho. Marta ouviu-o protestar:

– Que mania, porque é que fechas a porta à chave? Mãe, preciso de entrar nesta casa de banho e a Mariana tem a porta fechada à chave! Ó mãe!…

Marta ignorou-o, levou o pequeno para a cozinha e preparou o pequeno-almoço para os dois. Entretanto os filhos mais velhos já prontos para saírem, discutiam um com o outro. Enquanto as crianças acabavam de comer, Marta foi ao seu quarto e vestiu-se. Saíram e enquanto ela fechava a porta de casa, a filha carregou no botão do elevador, para não haver perdas de tempo.

Entram no carro e Marta contou até dez muito baixinho. Teria que enfrentar uma longa e desesperante fila de trânsito até chegar à escola do André. Os filhos mais velhos divertiam-se a arreliar o garoto mais novo com observações e histórias sem sentido. A criança começou a chorar e entre soluços perguntou:

– Mãe, tu achaste-me no caixote do lixo?

– Não filho, nasceste da minha barriga, como os manos. – Respondeu Marta olhando ameaçadoramente os filhos mais velhos, pelo espelho retrovisor.

Finalmente chegaram. Marta ajudou a criança a por a mochila às costas e levou-a até ao portão da escola. Esperou que ela descesse as escadas e voltou a correr para o carro. Conduziu rapidamente até à escola dos filhos mais velhos. Eles sairam; Marta aguardou uns minutos e depois saiu também. Dirigiu-se a uma mulher mais ou menos da sua idade e cumprimenta-a. Era a directora de turma da filha Mariana. Marta andava cismada com o comportamento demasiado aéreo da filha e precisava saber se estava tudo bem na escola.

– Fique descansada, para já a adolescência não está a interferir no desempenho da Mariana.

Marta agradeceu, respirou fundo e entrou apressadamente no carro. Parou em frente ao pequeno centro comercial do seu bairro e entrou.

Olhou-se na montra de uma boutique e não gostou da imagem devolvida. Dirige-se ao cabeleireiro e pediu à menina Tininha “um tratamento de choque”. A cabeleireira pôs as empregadas em alvoroço, ela sabia que a D. Marta raramente mudava o seu visual, mas quando o fazia era para parecer outra pessoa: cabelo, mãos, pés e pernas. Marta escolheu um loiro arrojado para os seus cabelos castanhos. Fez extensões nas unhas e pintou-as de vermelho escuro. Quando a cabeleireira terminou, olhou-se no espelho e sorriu agradada. Pagou apressadamente e saiu quase a correr. Agora não tinha um minuto a perder.

Entrou em casa e dirigiu-se ao guarda fato. Iria vestir aquele vestido preto, igualzinho a um modelo Pierre Cardin, o qual a sua modista tinha copiado na perfeição. Tinha até um chapéu de cor crua e preto a condizer, para ocasiões especiais. Hoje iria usá-lo. Entrou na casa de banho e começou a maquilhar-se. Quando terminou olhou-se ao espelho e sorriu. Ninguém iria reconhecê-la. Sentiu que a beleza entrava na sua corrente sanguínea e percorria todo o seu corpo. Era bela e poderosa, era mulher. Calçou uns elegantes sapatos de salto alto e pegou numa pequena bolsa preta; abriu-a e verificou se estava lá tudo o que precisava. Saiu de casa, meteu-se no carro e conduziu até à cidade.

Estacionou o carro num parque subterrâneo e andou a pé cerca de cem metros. Sentia admiração e desejo no olhar das pessoas que passavam. Marta saboreou a sensação e continuou a andar. Parou no nº 17. Entrou no elegante e movimentado edifício e subiu no elevador. Saiu no 8º andar. Tocou a campainha de uma porta que foi aberta por um homem de meia-idade, alto e flácido. Marta entrou, o homem sentou-se e comentou:

– Já mandei vir o almoço boneca! Senta-te aqui… – e dá umas palmadinhas na própria perna indicando o lugar onde ela se deveria sentar.

Marta sorriu-lhe encantadoramente. O homem olhou-a extasiado com os olhos gulosos. Marta avança na sua direcção num andar bamboleante e cheio de sensualidade, enquanto abre a bolsa preta. Com a rapidez de um ilusionista, coloca-lhe um revolver na testa, e dispara. O barulho foi abafado pelo silenciador, ouvindo-se apenas um pequeno estalido. Nem sujou a luvas pretas de sangue. Marta dirigiu-se à casa de banho e retirou alguns toalhetes de papel, com os quais embrulhou a arma. De dentro da bolsa preta tirou um pequeno saco de papel com asas de cetim e põe o embrulho lá dentro.

Regressou ao parque onde tinha o carro estacionado. Perto do seu carro estava um homem jovem com óculos escuros, ele segurava na mão um saco idêntico ao seu. Sem uma palavra, trocaram os sacos e Marta entrou no carro. Olhou de relance para dentro do saco repleto de notas de 100€ e 50€. Estava tudo certo, como sempre. Pôs o carro a trabalhar e pensou vagamente que já não dispunha de muito tempo, teria de voltar a casa para trocar de roupa e depois levar o seu filho mais novo à natação.

Conto por Luísa L.

Bote abaixo!...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s