A Gruta

Parque Estadual Gruta da Lagoa Azul

– Já sabes do André do Bote?

– Já. Foi-se embora…

– Coitada da Emília, ainda com os filhos tão novos e a estudar. Dão cá um despesão! Tenho pena dela.

– Ela arranja-se…

O tio Manel da Lena ia respondendo ao amigo quase sem o ouvir. Hoje, ele teria muito que tagarelar com a novidade do desaparecimento do André, filho do camarada Bote, que já tinha ido fazer companhia aos antepassados, ia para cinco anos.

Ele também iria em breve ter com a sua Helena, de quem tinha tantas saudades. Há dois anos que vivia naquela ansiedade e parece que a sua hora nunca mais chegava. Não fossem as filhas e os netos, já teria posto fim àquela existência balofa e sem sentido.

– Ó Manel, não achas estranho, mais este desaparecimento?

– Nã… Os rapazes agora são assim…

O que o tio Manel achava estranho era o mundo onde vivia, naquilo em que o mundo se tinha tornado… Uma bola no espaço, cheia de gente à deriva, é o que era, pessoas sem identidade, com os valores todos distorcidos. Uns poucos cheios de poder e dinheiro, mas sem pingo de vergonha na cara, agiam como senhores do Universo, os restantes, sem trabalho e cheios de fome, nada mais conheciam que a miséria e a doença. Era só olhar para a África e para a Índia. Nem precisava ir mais longe.

– Ainda nem fez quatro meses que desapareceu a Catarina, a neta da Deolinda, agora o André… até dá que pensar, a rapariga era toda “dada”…

– Uhh… Não sei, não….

“Muito “dada”… vendia-se, mas era!”, pensou o tio Manel. Ele bem sabia que ela recebia dinheiro para ir com os homens, e isso não lhe fazia sentido. O corpo dava-se por amor, por paixão, por puro prazer ou até por pena, mas nunca por dinheiro. E o André, esse estupor, que se satisfazia com os rapazes, alguns ainda crianças, ele bem o viu duas vezes, e avisou-o na devida altura, por consideração ao seu amigo Bote.

– Fazendo as contas, nestes últimos dois anos, já desapareceram dez. Nunca mais deram notícia, até parece coisa do outro mundo, não te parece Manel?…

– Tudo o que se passou na nossa terra, nestes últimos dois anos, e desde sempre é deste mundo, ó Zé!

O Zé Lagarto olhou o amigo com um misto de surpresa e medo. Não esperava aquela resposta. Pensou que ainda tinha trabalho a fazer antes da noite.

– Bem, ainda tenho que ir ao lote tratar dumas coisas, mas logo à noite vou jogar umas cartadas com o pessoal, também vens?

– Apareço lá, depois do jantar.

O tio Manel ficou a ver o amigo afastar-se no seu passo decidido e ainda cheio de vitalidade, depois levantou-se e foi andando pela estrada que levava ao cemitério. Ele sabia muito bem o que o Zé Lagarto ia fazer. Primeiro iria por gasóleo na carrinha, depois havia de dirigir-se ao lote, mas não para regar qualquer leira. Iria à cabana das ferramentas e tiraria de lá um saco preto do lixo, bem cheio. De seguida arrastá-lo-ia para a caixa da carrinha e tapá-lo-ia com umas mantas velhas. Depois conduziria para Norte, cerca de quarenta quilómetros, até chegar à velha barragem. Naquelas encostas escarpadas da ribeira, havia uma gruta bem abrigada, não muito grande, mas suficiente para albergar um pequeno cemitério. Estaria já cavado um buraco suficientemente fundo para enterrar um homem, e, nesse buraco, o Zé deitaria mais um saco de lixo. Depois falaria baixinho com a sua Matilde, que tinha partido uns meses antes de Helena, se calhar a pedir-lhe desculpa, ou então que compreendesse a sua tarefa de enviar a escória para o Inferno. Este era um segredo que ele não revelaria, nem à sua querida Helena, quando se encontrasse com ela.

Conto por Luísa L.

Bote abaixo!...

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