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O Milagre de S. Valentim

Dia de S. Valentim

– Sabeis, minha esposa, que vossa filha Mariana disse na minha cara que só casaria por amor? Tendes que educá-la melhor e fazer-lhe ver que essa postura não é própria de uma donzela. – Sentenciou Damião, enquanto a mulher socava a massa para fazer o pão.

– Tendes de ter paciência Damião, então não vedes como os tempos estão a mudar? – Disse Beatriz não parando um momento de amassar. Olhou ternamente para o marido, que estava sentado em frente à lareira, beberricando vinho numa malga de madeira finamente esculpida. Era uma peça muito bonita, que tinha vindo do oriente pelas mãos de seu irmão Bartolomeu.

– Mas de que mudanças falais? – Exasperou-se Damião. – Ela casará com quem eu lhe disser, tal como nós casamos. Dizei-me Beatriz, precisámos nós de amor para nos respeitarmos, termos filhos e labutar? Ela casará com o filho do Noronha. Já tenho tudo pensado.

Beatriz parou de amassar por um instante e tomou uma decisão. Limpou as mãos ao avental, puxou um banco para perto da lareira e sentou-se ao lado do marido. Tomou-lhe a mão direita entre as suas, num gesto de íntima cumplicidade.

– Damião, meu marido, sabeis que o imperador Cláudio II proibiu os jovens de casar. Ele quer que todos se alistem para o seu grande exército. Os nossos rapazes já lá estão… – disse Beatriz não contendo uma lágrima. – Saiba vossemecê que recebi hoje notícias do nosso Vasco. Ele vai partir em campanha amanhã ao nascer do Sol… e não o deixaram casar com a doce Maria. O meu menino…

– Ah, o que é isso mulher? – Murmurou Damião afagando os ombros da esposa –, o Vasco é um homem forte e inteligente, ele vai voltar e casar com a Maria. Sabeis que eu tenho muito orgulho dos nossos filhos, Beatriz? E muito orgulho em vós também, minha esposa. O imperador Cláudio acredita que se os rapazes não criarem laços, vão aos magotes alistarem-se nas suas tropas, além disso não deixam para trás mulheres e crianças.

Ambos ficaram em silêncio olhando para as labaredas e ouvindo o seu crepitar. Damião era um bom homem, sempre ajudara e educara os filhos, nunca deixando faltar o pão em casa. Beatriz amava-o e sabia que também era amada, embora Damião não admitisse tal coisa, pois considerava o amor uma fraqueza e uma excentricidade própria das mulheres.

– Sabeis que nossa filha Mariana vos ama muito… – começou Beatriz.

– Eu fiz mal em deixá-la aprender a ler e a cultivar-se. Tornou-se rebelde, ora não vedes que agora não quer casar com o rapaz do Noronha? – Replicou Damião já menos ácido.

– A nossa Mariana está apaixonada…

– Apai…Apaixonada?… – Damião ficou vermelho de tão irado.

– Acalmai-vos e ouvi-me. – Disse Beatriz numa voz doce e calma. – O jovem por quem Mariana está apaixonada é Afonso Paes, também ele é filho de uma família honesta. Pois ficai sabendo que Afonso é um rapaz saudável, inteligente e trabalhador e que ama muito da nossa menina.

– Mas o Noronha já me insinuou que o seu filho mais velho, vê com bons olhos a nossa Mariana…

– Pois eu compreendo-vos meu marido, mas achais mesmo que a felicidade da nossa filha não é mais importante? Assim como assim, vossemecê ainda não contratou nada com o Noronha. Já ouviste falar no Bispo Valentim?

– Se pensais que ele pode casar Mariana e esse Afonso, podeis tirar daí o sentido, pois foi decapitado hoje. Tantos casamentos celebrou, mesmo proibido pelo imperador, que teve este triste fim.

– Eu sei Damião. Mas enquanto o Bispo Valentim esteve preso, todos os jovens de Roma o apoiaram. A rua da prisão mais parecia um tapete de flores, e as mensagens de amor dos amantes, voavam até às grades da sua cela como se asas tivessem.

– E vós, Beatriz, uma mulher sensata, acreditais nisso? – Perguntou Damião.

– Sim, meu esposo, acredito. Sabeis que o Bispo Valentim curou Asterias, a filha do carcereiro, da cegueira? É uma linda história, pois Asterias e Valentim apaixonaram-se enquanto ele esteve preso, e ela miraculosamente voltou a ver. Hoje, depois de Valentim morrer, a jovem recebeu uma carta que estava assinada “De seu Valentim”, não achais lindo este gesto?

– Extravagâncias… Mas então, se o Bispo Valentim já não pode casar Mariana, porque… me falaste dele?… Casou-os antes de morrer, não é?… – Damião arregalou os olhos mas as palavras ásperas que lhe dançavam na cabeça, não conseguiram sair.

– É isso meu Damião! – Sorriu docemente Beatriz. – Não sejais demasiado duro com ela, pois ela e Afonso estão tão felizes… Só esperam a vossa bênção. Por favor dai-lha!…

– Darei minha doce Beatriz. – Prometeu Damião.

– Vedes como Valentim faz milagres?…

Por Luísa L.

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