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Encontro com a Morte

Sob a chuva

Mariana vestiu uma gabardina comprida e calçou umas galochas. Fez tudo na penumbra e sem barulho, pois não queria que a sua mãe se apercebesse que ela ia sair. Aquele não era o momento ideal, para ser submetida a um dos inquéritos de Dona Ermelinda. Depois pegou num velho guarda-chuva, abriu a porta da frente e saiu de casa no mais absoluto silêncio, resolvida a enfrentar aquela chuva persistente, que não acalmava, ia para dois dias. Decidiu caminhar pela estrada de terra batida, pois, mesmo a andar com muito cuidado para não cair na lama escorregadia, chegaria muito mais depressa à Quinta das Laranjeiras. Tinha de se apressar. Dentro de uma hora seria noite escura. Andou cerca de quinhentos metros na estrada paralela ao cemitério e depois meteu por uma vereda larga, ladeada de vinha.

Naquele fim de tarde invernosa, o silêncio era apenas quebrado pelo cantar monótono e irritante da chuva, que fustigava o grande guarda-chuva preto, e, pelo chapinhar dos seus passos na estrada cheia de lama e água. Mariana parou e olhou para Norte. Já muito longe, no alto do cabeço, com as luzes bruxuleantes como pequenas estrelas longínquas, erguia-se a vila. Vista dali parecia um presépio. Sorriu. Sentia-se bem consigo, misteriosamente aquecida, serena e docemente feliz. Este era o momento ideal para falar com a Tina e abrir-lhe o seu coração. Há meses que tentava falar-lhe da sua paixão, mas nunca tivera coragem. Temia a sua reacção. Afastou esse pensamento. Afinal era uma mulher com quarenta e dois anos, dona da sua vida e com todo o direito de ser feliz! Mariana andava agora mais depressa, como se tivesse urgência em chegar.

À sua frente já conseguia ver as luzes que iluminavam a pequena estrada das ‘Laranjeiras’. Entrou no caminho da quinta, ladeado de roseiras chorosas que só voltariam a sorrir na Primavera. Do lado direito estendia-se um alegre laranjal repleto de pesadas laranjas, que eram a única nota de cor naquela tarde cinzenta. Finalmente Mariana alcançou o alpendre. Parou em frente à porta, na tentativa de ouvir algum som que viesse de dentro, mas o silêncio era absoluto. Fechou o guarda-chuva e colocou-o numa pequena pipa de barro, que estava do lado esquerdo da porta, para esse efeito. Bateu à porta com os nós dos dedos e esperou. Como não obteve resposta, voltou a bater e chamou:

– Tina!… João?!… – entretanto rodou o puxador da porta e esta abriu-se. Mariana entrou e voltou a chamar: – Tina?!… Está alguém em casa? – Enquanto aguardava a resposta, descalçou as galochas e deixou-as junto da pipa dos guarda-chuvas. Depois fechou a porta, despiu a gabardina e pendurou-a. Dirigiu-se para a lareira onde, como era hábito, crepitava um enorme lume. Ouviu barulho no andar de cima e virou-se a olhar para a escada. Tina olhava fixamente para a outra mulher enquanto descia. Estava pálida e com o rosto tenso. Mariana correu para a amiga.

– Mas, o que é que tu tens? Estás branca como a cal da parede. Senta-te aqui. Queres um copo com água? – Perguntou Mariana.

– Não, obrigada. Já estou bem. Foi uma tontura. Mas já passou!… – Tina tentou sorrir.

– Parece que viste um fantasma… viste? – Brincou Mariana – Tenho uma coisa para te contar – começou Mariana – mas gostaria que o João estivesse presente. Ele está em casa?

– Está lá em cima no escritório. Mas dá-me só uma luz… vá lá… – pediu Tina.

– Bem… é que eu gosto de alguém. Mas é um caso complicado… e eu queria falar com os dois. – Respondeu Mariana hesitante e muito tensa.

Os olhos de Tina abriram-se admirados, e, por momentos, um lampejo iluminou-os. O seu rosto contraiu-se num esgar estranho, e disse:

– Ahhh…está bem!… Olha, tenho um ‘porto’ excelente. Vou preparar um para cada uma. Fica aqui sentadinha e aquece-te. Deves ter os ossos gelados! – Tina levantou-se decidida e dirigiu-se à cozinha.

Alguns minutos depois, Tina entrou na sala com dois pequenos copos, cheios de vinho do Porto. Equilibrava-os numa mão e na outra ostentava uma garrafa do delicioso líquido.

– Tina, queres que saia daqui de gatas? Está um temporal lá fora! – Disse Mariana, tentando disfarçar o nervosismo que, quinze minutos antes, pensava morto.

Tina ofereceu um dos copos à amiga e pousou a garrafa na pequena mesa de apoio.

– Vamos beber tudo de uma vez, como fazíamos antigamente? – Desafiou Tina.

– Bora! Um… Dois… Três! – Mariana e Tina beberam de um só trago o conteúdo dos respectivos copos. Depois voltaram a servir mais um pouco, e beberricaram enquanto contavam piadas.

– Vamos ter com o João! – Desafiou a Tina.

Mariana levantou-se e sentiu uma leve tontura. Sentia um gosto estranho na língua. Seguiu a amiga que tinha pegado na garrafa e a levava para cima também. A meio da escada Mariana cambaleou. Um sono envolvente começava a apoderar-se dela. Segurou-se ao corrimão e continuou a subir. Quando chegou ao escritório despiu o casaco de malha e olhou para o João que estava a dormir no sofá. Tinha a cabeça encostada para trás e a boca semi-aberta. Riu-se com vontade. Que figura mais ridícula! Tina olhava atentamente para ela e ajudou-a a sentar-se no sofá, mesmo ao lado do João.

– Então eras tu! Eras tu a vaca que o João andava a montar. Pois, minha querida, essa tua paixão era mesmo complicada! – Tina riu, num riso histérico, descontrolado.

– Estás a falar do quê? – Perguntou Mariana com voz arrastada. – Qual João? – Por ventura a sua amiga de infância pensaria que ela andava a dormir com o marido? Que ridículo… Precisava dizer-lhe, mas tinha tanto calor e a voz recusava-se a sair da garganta.

– Esse que está ao teu lado para sempre… Podem ficar juntinhos para toda a eternidade! – Riu-se Tina.

Mariana não conseguia controlar o sono e sentia dificuldade em respirar. Queria dormir. O que estava aquela tonta a dizer? Ouvia a sua voz lá longe… e o eco de uma gargalhada sobrenatural. Tinha tanto sono…- Mas… não é João nenhum… – disse Mariana com dificuldade – é o Isac… Magalhães…

– O Isac? O Isac… ele é judeu. Claro, uma grande confusão para a cabeça dos teus pais… Merda! Então quem é a gaja que andava com o João? – Tina descontrolou-se. Correu para a amiga e abanou-a. Acorda, não durmas!… Tu sabes quem ela é? Tu sabes de certeza, mas não me queres dizer. Acorda parvalhona!! Acorda!… Acorda!…

Mariana tentou abrir os olhos, sentia-se sufocar, precisava de ajuda, ou morreria ali a ouvir aqueles gritos longínquos, que pareciam o eco a esvair-se. Tentou gritar por socorro, mas a sua voz não saiu. O ar já não entrava nem saía dos seus pulmões. O sono venceu-a.

Tina sentou-se aos pés da amiga, encostou o rosto no seu colo e chorou. Chorou baixinho, até a fonte das suas lágrimas secar para sempre. Depois levantou-se e foi tomar um duche. Tinha muito que fazer.

Conto por Luísa L.

2 thoughts on “Encontro com a Morte

  1. Interessante este texto. Que mulher terrivel!!! Matou a pessoa errada!!! Muito legal texto. Prendeu-me do início ao fim. Meus sinceros parabens Luisa L. Gostei do seu espaço.

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    • Obrigada didhossp. Também me vou entreter no teu espaço, pois já estive a espreitar e… suspense! 🙂
      Este texto fiz de propósito para um concurso virtual do género suspense, terror, policial, etc.

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