Conversas da Treta

As conversas da treta surgem aos montes e de todos os lados. De manhã ligo a TV e todos os canais exibem programas da treta, com as respectivas conversas, evidentemente. A seguir desligo-a – graças aos céus tenho essa opção. À noite ligo a TV e lá vêm os políticos, analistas políticos, economistas, autarcas e afins com as suas conversas da treta. São tão refinadas e de elaborado vocabulário, que até parecem conversas sérias e cheias de conteúdo. Mas, as que me custam mais a suportar são aquelas que surgem pela manhã. Sinto-as  dentro da minha cabeça, como um comboio a vapor a apitar dentro de um túnel. Continuar a ler

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O Congresso de MIM

Estou em reunião. Não, estou em Congresso… isso…  assim soa muito melhor! Sou a secretária geral e única militante do partido MIM. Por muito mal que pareça à primeira vista, nariz, ou mesmo ouvido, esta é a pura realidade.

Ontem agendei este Congresso com conhecimento a todos os participantes, eu mesma; fiz uma longa ordem de trabalhos que distribui a todos os intervenientes, que sou eu. Elaborei algumas moções de censura, repúdio e confiança, as quais dei a ler a todos os Congressistas. Eu própria.

A democracia impera neste evento. É um Congresso Democrático. Continuar a ler

Uma Garrafinha Cheia de Nada

Tenho uma garrafinha de cristal muito elegante e delicada. Ela está cheia de Nada.

É linda a minha garrafinha cheia de Nada. Umas vezes é cor de fogo, outras azul com nuvens brancas. Tem gravada uma roseira brava que, ora dá rosas vermelhas de sangue, ora lhe crescem umas brancas de neve.

A rolha é em forma de lágrima, mas não chora. É uma rolha sorridente, colorida como o arco-íris.

Há quem pense que a minha garrafinha está cheia de Tudo, mas é ilusão, ela é uma garrafinha cheia de Nada. Se estivesse cheia de Tudo não era uma garrafinha, era um frasco alto ou um pote bojudo cheio de Tudo. É que o horizonte do Tudo e do Nada estão na imaginação. No que quisermos lá meter. Na garrafinha cheia de Nada. Continuar a ler

Uma Aventura com D. Quixote

Hoje fui laurear. Estava regalada da vida a ler uma revista de fofocas e crochet sentada debaixo de um carvalho, ali para os lados da Tapada de Mafra, quando vejo surgir três almas e um cavalo cansado. Não, não pensem que eram sopas do dito, era um cavalo a sério, daqueles que relincham e dão coices.

Limpei os óculos. Queria ver com clareza as figuras, pois mesmo à minha frente tinha o Cervantes, o D. Quixote, o Sancho e o Rocinante. Faltava ali alguma coisa… tinha quase a certeza que o Sancho Pança costumava andar em cima de um burro, mas agora trazia debaixo do braço um Toshiba Satellite A300D, que não era nada de deitar fora. Os quatro olharam para mim com um ar esgazeado e o Cervantes tomou a dianteira. Continuar a ler

A Insurreição

Hoje, quando saí de casa por volta das 7:45h, não chovia. O céu estava cinzento, mas as nuvens iam altas, por isso era possível que nem chovesse. Após esta edificante apreciação meteorológica que fiz de mim para mim, tive a certeza que alguns pensamentos são de uma inutilidade confrangedora. Então lá liguei o carro e fiz-me à estrada, para deixar a minha filha na escola a tempo e horas.
De regresso a casa, estacionei, abri a bagageira e tirei lá de dentro um velho anoraque que vesti de seguida. Fechei a porta, tranquei o carro e iniciei a minha caminhada. Pelo canto do olho olhei para a paragem do autocarro que se encontrava a cerca de vinte e cinco metros. Vi que o monstro de sete cabeças já lá estava à espera do seu transporte, um pouco afastado do resguardo, por sinal. Comecei a andar, passei pelo monstrengo e nem sequer olhei para ele. Estava zangada. Muito zangada. Furiosa. Continuar a ler