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A Serventia do Tapete

– É um infeliz, é o que tu és! Nem para tapete serves! – Disse aquela mulher de rosto suíno e porte de bulldozer. Na boca fina escorriam-lhe uns fios de fel, fluido verde, que aparece de vez em quando nos donos da verdade e do pequenino mundo que rodeia o seu umbigo.


O rapaz franzino, que caminhava ao seu lado, encolhia-se dentro do blusão impermeável tentando fintar as palavras daquela bola-de-berlim, de modo a não ser atingido por algum bocado de creme bilioso. Se alguma daquelas palavras letais o atingisse, era certo e sabido que ele seria esmagado, imobilizado, aniquilado, quiçá morto, por tamanho desprezo e ódio.


Quando cheguei a casa, olhei com pena para o tapete da minha porta. Realmente… ser capacho é estar abaixo de tudo. É estar ao serviço dos sapatos. As botas cardadas pisam-no selvaticamente. Os ténis cheios de lama refastelam-se nele, até ficarem limpinhos. Os sapatos de saltos altos, finos como espadas,  deixam-lhe profundas feridas.


Os tapetes têm que aguentar o arrastar de pés dos gordos e os passos leves dos magros. Ficam doridos com o peso das mesas, cadeiras e sofás; quase sufocam com as pilhas de brinquedos que suportam e enjoam com os pulos das crianças. Os tapetes são a salvação do soalho polido, mas pensam que alguém lhes liga? A não ser que sejam persas ou de Arraiolos, mas essa elite não é para aqui chamada…


Então, perturbada com estes pensamentos, tomei uma decisão. Peguei no tapete com carinho e meti-o na banheira. Dei-lhe um banho de espuma e escovei-o delicadamente, para não magoar mais o seu pelo de sisal. Passei um pouco de amaciador e escovei mais uma vez. Agora estava limpo e cheiroso. Acariciei o meu tapete e agradeci-lhe os anos e anos a aguentar o meu raspar de pés.


Já está velhinho o meu capacho. Coitado. Tantos anos a dormir à porta de casa com o cão da vizinha em cima! É caso para dizer: ser tapete está abaixo de cão!





Dire Straits – Walk of Life

10 thoughts on “A Serventia do Tapete

    • Olá Nropb!
      Fiquei tão curiosa com o teu conto que fui procurá-lo. O mais engraçado é que o encontrei inserido numa história de Viriato Corrêa chamada “Cazuza”. Um mimo!
      Beijinhos
      Luísa

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  1. Que Post Fantástico!
    Amiga Luísa:
    Um Conto absolutamente mágico!
    Um novo tempo para quem tanto nos serve.
    Contagiou. Mexeu. Valeu.
    Parabéns por mais um excelente Post!
    Abraços fraternos,
    LISON COSTA.

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  2. Olá Luisa!
    Adorei a reflexão…. pobre do capacho que está fadado a um futuro nada promissor… talvez sua “vingança”, mesmo que simplória, seja ir apagando a mensagem “Bem Vindo” com o passar dos anos… 😉 rs
    Beijos, Fernandez.

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  3. é… algumas pessoas consegue dar o agradecimento ao cotidiano. Mesmo, aos menos nobres. Outros, assassinos dos sonhos alheios, só fazem mesmo humilhar, desqualificar aos outros.

    Ainda bem que meus amigos, optam sempre por banharem seus tapetes e reavivar-lhe as cores e tramas do tecido, para que seja sempre bem legível as duas palavrinhas mágicas: bem vindo. E benditas essas palavras, que tornam nossa vida Viva.

    Beijos, Luísa. Excelente o seu conto
    (PS se você encontrar esse senhora novamente, senta-lhe uma guarda-chuvada na cabeça e diga que foi presente de um amigo brasileiro. Ou de um algum capacho revoltado rsrs Deus há de perdoar essa doce vingança)

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  4. Adorei isso. Enquanto lia, sobre o mero tapete que serviu por tanto tempo, lembrei de pessoas que se tornam capachos, muitas vezes sem perceber…. simplesmente se transformam num quase nada imperceptível às necessidades. Bjs

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