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Poesia à Parte…

Abri a janela do meu quarto. Olhei para a atmosfera e senti o ar em movimento. A velocidade do movimento das partículas húmidas era agreste. Grossos cumulonimbus mantinham suspensa, na baixa troposfera, uma enorme quantidade de água no estado líquido. Esta água prometia desprender-se a qualquer momento. Fechei a janela. Já na banheira, retirei o excesso de gordura e transpiração do corpo com um abrasivo ligeiro, de cheiro adocicado. Sequei-me num pano, tecido em algodão, e vesti-me.


Desci quinze andares numa caixa mecânica, que diariamente contribui para o atrofiamento dos meus músculos. Entrei no habitáculo de um veículo motorizado e manobrei alavancas. Parei-o em frente a um estabelecimento comercial. Entrei e estimulei os músculos do meu corpo com cafeína. Saí. Sentado na escada de acesso ao estabelecimento estava um ser humano do sexo masculino, que aparentava menos de metade da idade média de um homem.


– Vizinha… dá-me um trocado para uma sandes?…


Abri a carteira, retirei de lá uma moeda de cinquenta cêntimos e depositei-lha na mão. Era para a cerveja da manhã. Tinha feito a minha má acção diária.


Voltei a entrar no veículo e manobrei-o até ao mercado. Comprei proteínas na forma de pescado e bife de aves. Passei na secção de vitaminas e sais minerais e abasteci-me. Adquiri ainda lípidos, cálcio e algumas fibras. Paguei no caixa, com moeda corrente, muito mais do que o valor real dos alimentos e ainda todos os impostos directos e indirectos.


Parei em frente de outro estabelecimento; aprecei as flores dos vegetais que ali se vendiam. Escolhi uma herbácea perene de pétalas abundantes e coloridas, comummente chamada gerbera.


Voltei para o veículo motorizado e manobrei-o até chegar à porta de casa. Levava na alma a sensação vazia de dever cumprido. Hoje a poesia que me acompanha desde que nasci está de folga.





Guns N’ Roses – November Rain

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9 thoughts on “Poesia à Parte…

  1. Luisa, querida, embora eu tenha feito os 2 posts no Quiosque Azul, eu o fiz por desejo do Renato. Seria maravilhoso que as pessoas dessem atenção lá, deixando comentarios lá. Porque a familia dele e outras pessoas que não são do dihitt, visitam. Hoje, no velorio, as pessoas comentavam isso. Para eles é reconfortante. E o Quiosque provavelmente não vai parar.

    Beijos

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  2. Que Post Fantástico!
    Amiga Luísa:
    Uma perspectiva singular. Há dias em que estamos assim.
    Valeu a pena conferir!
    Parabéns por mais um excelente Post!
    Abraços fraternos,
    LISON COSTA.

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  3. Oi Luisa,

    Adorei a maneira como escreveu o texto, usando definições criativas no lugar das palavras. Meu editor iria adorar a definição de elevador (caixa mecânica, que diariamente contribui para o atrofiamento dos músculos). Até mesmo a matemática envolvida na idade do sujeito que aparece no texto nos leva a usar um pouco mais a atividade cerebral do leitor! rs

    bjs

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