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A Insurreição

Hoje, quando saí de casa por volta das 7:45h, não chovia. O céu estava cinzento, mas as nuvens iam altas, por isso era possível que nem chovesse. Após esta edificante apreciação meteorológica que fiz de mim para mim, tive a certeza que alguns pensamentos são de uma inutilidade confrangedora. Então lá liguei o carro e fiz-me à estrada, para deixar a minha filha na escola a tempo e horas.


De regresso a casa, estacionei, abri a bagageira e tirei lá de dentro um velho anoraque que vesti de seguida. Fechei a porta, tranquei o carro e iniciei a minha caminhada. Pelo canto do olho olhei para a paragem do autocarro que se encontrava a cerca de vinte e cinco metros. Vi que o monstro de sete cabeças já lá estava à espera do seu transporte, um pouco afastado do resguardo, por sinal. Comecei a andar, passei pelo monstrengo e nem sequer olhei para ele. Estava zangada. Muito zangada. Furiosa.


Quando a paragem do autocarro ficou nas minhas costas, verifiquei que as minhas pernas abrandaram o passo, nem sei bem porquê, visto eu não ter a mínima intenção de parar. Mas o facto é as idiotas abrandaram. Dei um berro à minha razão e às minhas razões, então as pernas lá recomeçaram a marcha acelerando lentamente, de modo que nem se percebeu a hesitação.


Foi aí que o caldo se entornou! A idiotificada massa cinzenta que está dentro da minha caixa craniana, deu uma ordem espontânea às pernas e elas pararam. Mais: voltaram para trás. Garanto que vou acabar com a autodeterminação cerebral. Era só o que faltava, agora este estúpido cérebro a tomar decisões sem o meu consentimento!


Quando as pernas chegaram a vinte centímetros do monstro com cabeça de australopiteco, o insurrecto cérebro fez sair um som pela minha boca.
– Queres uma boleia até ao metro do Senhor Roubado? – Perguntou a voz que me saiu da garganta sem autorização.


– Se não for incomodar a marcha de V. Exª, agradeço muito. – Respondeu o monstro com cabeça de homo sapiens sapiens.


Olhei para ele e desenhou-se um sorriso no meu rosto, eu ainda o tentei deter, mas já não fui a tempo. O cabeça dura que estava à minha frente, sorriu também. Depois, ao lembrar-me do motivo da nossa briga, comecei a rir. Ele riu às gargalhadas também. Depois ele abraçou-me. Eu abracei-o também. Depois ele disse:


– E se eu chegasse uma hora atrasado ao trabalho?…



E foi assim que eu me livrei à caminhada!.. Ou melhor, teria livrado se esta história não fosse apenas um conto.


Stravinsky – Firebird pela CNB

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5 thoughts on “A Insurreição

  1. Que Post Fantástico!
    Amiga Luísa:
    Uma crônica emocionante… É quando a insurgência é nula diante da cega revolta do amor? Eu não sei. Talvez.
    Contagiou. Mexeu. Valeu.
    Parabéns por mais um magnífico Post!
    Abraços fraternos,
    LISON COSTA.

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  2. Gostei muito, tens uma capacidade enorme de nos prender logo nas primeiras linhas.
    É um conto, mas é isso mesmo que na maioria das vezes acontece na vida real, pelo menos comigo. A minha massa cinzenta racionaliza pouco, age por impulso emocional, só depois se dá conta do erro, mas o mal já está feito.

    Parabéns Luísa

    Abs

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  3. Luiza, que delícia, mas bem que podia não ser um conto né?! Não tem coisa mais gostosa que depois de uma briga fazer as pazes com estes monstros cabeça oca que andam nas paragens da nossas vidas…..hehehehehe
    Beijo enorme em seu coração

    Ps. O cérebro tem razões que só o coração conhece!

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  4. Muito bom Luísa,

    Está crônica tinha me escapado, com as loucuras do dihitt nos últimos dias. Mas já a achei.

    E que bom que pude acha-la. Também brigo muito com meu pobre cérebro, que as vezes, me apronta dessas que romper com meu planejamento inicial. rsrs

    Beijos

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