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Uma Aventura com D. Quixote

Hoje fui laurear. Estava regalada da vida a ler uma revista de fofocas e crochet sentada debaixo de um carvalho, ali para os lados da Tapada de Mafra, quando vejo surgir três almas e um cavalo cansado. Não, não pensem que eram sopas do dito, era um cavalo a sério, daqueles que relincham e dão coices.

Limpei os óculos. Queria ver com clareza as figuras, pois mesmo à minha frente tinha o Cervantes, o D. Quixote, o Sancho e o Rocinante. Faltava ali alguma coisa… tinha quase a certeza que o Sancho Pança costumava andar em cima de um burro, mas agora trazia debaixo do braço um Toshiba Satellite A300D, que não era nada de deitar fora. Os quatro olharam para mim com um ar esgazeado e o Cervantes tomou a dianteira.

– Gentil Senhora, estamos cansados e cheios de sede. Por acaso sabe se estamos perto de alguma fonte?
– Não conheço nenhuma, – respondi – mas, sentem-se, sentem-se!… Eu vou buscar água.

Levantei-me. Fui até ao carro buscar duas garrafas de água e uns copos de plástico. Em menos de dois minutos estava de volta.

– Permita-me… – disse o D. Quixote, e, numa cena digna dum romance de cavalaria, retirou-me as garrafas e os copos das mãos. Depois distribuiu os copos e encheu-os de água. Bebemos todos com prazer.

O Rocinante, aproveitando a nossa distracção, retirou-se à francesa para um prado, onde pastavam uma égua e duas mulas.

– Mas, o que fazem os senhores por aqui? – Perguntei, admirada.
– Minha Senhora, – disse o D. Quixote numa voz condoída – ao tentarmos sair de Zaragoza, 27 de Setembro de 2006 e encontrar a passagem para o séc. XVII, viemos parar aqui.
– Poderá Vossa Mercê dizer-me, que sítio e época são estes, e pôr-nos a par das novidades? – Perguntou o Cervantes.
– Estamos em Portugal, 1 de Outubro de 2009. – Respondi. – Avançaram no tempo só uns míseros três anos. Por cá, nada relevante a registar. Domingo, fomos a votos. Não ouviram falar? Todo o país tomou banho e se perfumou para ir votar. Foi um dia cheiroso.
– Eu ouvi falar nesses tais votos, na televisão da estalagem onde ceamos, numa aldeia ali atrás daquele monte. Ainda bem que têm o hábito de tomar banho nesse dia. Com tanto povo na rua… se é que me compreende.
– Claro, claro, Senhor Cervantes. – Respondi sorrindo e piscando o olho.
– Fiquei surpreendido como é que o Sócrates, um simples filósofo fora d’época, conseguiu ganhar as eleições!… Será que a sua arete foi corrompida?
– Não, não… não é o Sócrates Philósofo, é o Sócrates Engenheiro; verdade seja dita, também há quem duvide da profissão deste Sócrates, o que faz dele um Sócrates pouco socrático.
– Bem vejo, bem vejo… – respondeu Cervantes, olhando vagamente para o horizonte.
– Eu também vejo que os senhores têm conhecimento das novas tecnologias… – disse eu apontando para o portátil que o Sancho segurava cuidadosamente.
– Ora, ora, que poderia esperar Vossa Mercê? Já nos perdemos oito vezes no séc. XX e esta é a segunda no séc. XXI. – Disse o Sancho que tinha estado caladinho até aí – Este ordenador foi trocado pela minha bela espada moura, uma recordação de família… – acrescentou o pobre homem, quase a chorar.
– E a Gentil Senhora por acaso não viu o Cavaleiro da Branca Lua? – Perguntou Dom Quixote.
– Ah… aquele que disse que a dama dele era mais formosa do que a Dulcineia? Não, mas tenho pena. Gostava de trocar uns e-mails com ele, pareceu-me sempre um vilão tão galante… – Disse eu para espicaçar o D. Quixote.
– Esse ignóbil e falso ser, filho de uma grande putana (perdão Minha Senhora, mas saiu-me sem querer), duvidar da beleza e honra da minha amada Dulcineia… Por acaso ela não apareceu por aqui, não? – Interrogou o D. Quixote.

O Cervantes fazia notas no portátil e gozava o pratinho, satisfeito com o desenvolvimento das suas personagens. O Sancho abanava a cabeça, intercalando os abanos com golinhos de água. E, o Rocinante continuava lá no prado a galantear as fêmeas que pastavam, arte aprendida com o seu dono. De longe pareceu-me que não estava a obter grandes resultados.

– Como é que ela é? – Indaguei.
– É a mais bela das damas: esguia e de sedosos cabelos, inconfundível na leveza do andar. – Descreveu D. Quixote.
– Assim é difícil, sabe… são atributos muito vagos. Ela tem algum sinal especial? – Quis eu saber.
– Tem uma bela tatuagem no peito, muito perto do pescoço. A sua tez é alva e macia e os seus lábios vermelhos e sedosos como pétalas de rosa.
– Meu querido amo… passou-se de vez. Ainda não percebeu que ela é um ele… – disse com tristeza Sancho Pança, quase em surdina.
– Não está muito melhor… por acaso ela tem alguma tatuagem no… no ra-bi-os-que? – Perguntei a medo, tentando obter mais alguns dados.
– Minha Senhora, como ousa perguntar-me tal coisa? Eu sou Dom Quixote de La Mancha, Cavaleiro Andante e também um cavalheiro! Como poderia eu saber semelhante pormenor, de tão virginal criatura? – Ofendeu-se o Dom Quixote.
– Cada vez pior, pobrezinho, agora pensa que aquele camponês viril e mulherengo é uma Menina Virgem… – mordeu Sancho Pança baixinho.
– Pronto, pronto, desculpe, tantas vezes perdido no séc. XX pensei que não fosse tão puritano! – Desculpei-me.
– Não se rale Vossa Mercê, pois o meu amo acredita realmente no que imagina, mas é um verdadeiro cavalheiro. – Disse o Sancho.
– Meus Senhores, o que pensam do séc. XXI? Sabem, é que eu tenho um Blog e seria uma grande honra publicar uma entrevista vossa. Se quiserem, poderão aceder e verificar que é um sítio de qualidade. Só publico cópias, mas dou créditos! Coisa fina. Copio tudo, desde poemas e textos de grande profundidade filosófica a fotografias e vídeos. Sou uma dona de casa copista.
– Hum…Hum… – Cervantes aclarou a voz – Devo dizer-lhe que esta Era é uma lástima. Por onde andam os loucos? De que massa são feitos os homens de 2009, que não enfrentam de cara destapada, nem exércitos nem moinhos? Os escritores, os homens sábios e cultos, parecem não emergir nesta época em que o mundo desmorona numa catástrofe ecológica. Esta é uma terra sem rei nem roque. Confusa e estranha. Veja o exemplo da Internet, até o Sancho tem um Blog. Pensa que ele já se perguntou, por acaso, quão culto é para se julgar no direito de editar um Blog?
– Isso parece-me muito injusto Senhor Cervantes, porque não haveria o Sancho de ter um Blog? A Internet é um serviço pago. Que direito tem o senhor de…– Comecei eu indignada, pronta para uma acesa discussão.
– Deixe lá, Minha Senhora, eu já estou acostumado com a sobranceria e menosprezo do Senhor Cervantes, ele detesta concorrência, mesmo aquela que jamais lhe poderá fazer sombra, como é o caso do meu Blog. Mas eu não lhe dou importância… – disse o Sancho sorvendo mais um golo de água.
– E veja o Médio Oriente, – continuou Cervantes, sem nos ligar um pingo de atenção – que direito têm os homens de invocar o nome de Alá, para chacinar? Onde estão os ideais de cavalaria e os princípios dos homens de bem? Mortifico-me diariamente com estas questões. Já estou velho demais p’ra estas andanças, é o que lhe digo. A pobreza de espírito, Minha Senhora, nesta Época, é rainha!…
– Tem razão, tem razão, parece-me que o Senhor Cervantes precisa descansar um pouco. Já está a misturar alhos com bugalhos… – disse-lhe, indicando o tronco do carvalho para ele se encostar.
– Eu cá estou a gostar, – replicou o Sancho Pança – o povo não é mal tratado, tem comida, telenovelas e Internet. Além disso o meu Blog tem as mais belas canções d’amigo… e, até algumas, de escárnio e mal dizer!
– Louco!… – Exasperou-se Cervantes – Isso é uma manobra dos curtos de vista.
– Ora, – insistiu Sancho – os servos têm médicos, instrução e subsídios; as estalagens têm assentos e iguarias dignos de um rei. E, acima de tudo, há o futebol. Gostava de cá ficar!
– Ingrato. – Disse Cervantes – eu criei um fiel escudeiro, não um badameco qualquer que se deixa contaminar por essas drogas sociais.
– Eu penso que, uma Era sem Cavaleiros Andantes, não é uma verdadeira Era. – Sentenciou Dom Quixote, pondo água na fervura. – Eu tenho percorrido montes e vales, aldeias e cidades, tenho-me exposto e exponho o meu fiel escudeiro, tenho enfrentado exércitos e monstros, porque é minha missão resgatar a justiça e punir a crueldade. Não me desvio do meu objectivo, mas não me perdoo ter perdido a bela Dulcineia…
– Mas, diga-me Dom Quixote, se uma das suas missões é acudir a donzelas em perigo, como foi perder a Dulcineia?
– Não é uma… – começou Sancho.
– Já sei, já sei… – disse eu apressadamente para o calar.
– Tudo se passou numa das nossas aventuras em 1968. Em Maio estivemos em Paris, por lá o povo insurgiu-se contra um tal De Gaulle, não me recordo se era rei ou presidente, e fomos apanhados no meio de uma manifestação estudantil no Quartier Latin; um exército de cavaleiros negros carregava brutalmente nos jovens e eu parti a minha lança, ao tentar proteger a minha doce Dulcineia. Baixei-me para apanhar a metade da lança, perdida naquele ajuntamento, e, quando me ergui, a bela donzela tinha desaparecido…
– Fugiu com aquela francesinha sardenta… – insistia Sancho.
– Pchiuuu…. – ordenei.
– …arrastada por uma onda gigante de gente desvairada. Fomos andando para leste, na esperança de a encontrarmos, mas por todo o lado encontramos as mesmas insurreições. Em Agosto estávamos em Praga, mas não gostamos muito do clima e voltamos para sudoeste. Estava lá bastante frio, o que não é bom para os meus ossos e o Cervantes também se queixou.
– Estou admirada com a sua excelente memória, Dom Quixote. – Disse eu aduladora.

Dom Quixote corou com o elogio e olhou para as unhas, que estavam a precisar de um corte e lavagem urgentes. O Cervantes dormia a sono solto encostado à árvore, e, Dom Quixote deitou-se a custo, fazendo ranger ruidosamente a armadura ferrugenta.

– E o Sancho? Já percebi que também gosta de Blogar. – Incitei.
– Saiba a Senhora que gosto, e muito! Qual é o endereço de Vossa Mercê? – Perguntou o Sancho.
Peguei numa folha do meu bloco-notas e escrevi.
– Agora dê-me o seu, Senhor Sancho. Visite-me, e não se esqueça de me deixar um comentário! – Pedi.
– Fique descansada, gentil Senhora. Quer fazer uma troca de links? – Perguntou o Sancho com os olhinhos brilhante.
– Seria uma honra, vou tratar disso quando chegar a casa. Hoje vou postar uma receita de culinária, é um docinho de se lhe tirar o chapéu! Se quiser pode copiar, esteja à vontade.
– Fique Vossa Mercê sabendo, que não vou perder! Eu vou postar sobre cães vadios, tenho visto tantos ultimamente…
– Cães-cães… ou “cães”?
– Cães-cães. Também tenho encontrado muitos “cães”, mas sabe, esses dão-me raiva. Gosto mesmo é dos cães-cães.
– É cá dos meus Senhor Sancho, eu também tenho muita pena desses pobres animais.
– E o que pensa Vossa Mercê do AdSense?
– Eu ainda não ganhei nada, mas ouvi dizer…

E para ali ficamos a cavaquear mais meia hora, fazendo juras de visitas aos respectivos Blogs; até que, o Sancho, vencido pelo sono, deitou-se também. Num minuto dormia como uma pedra! Aproveitei aquele apagão colectivo e voltei aos meus deveres domésticos.

Crédito das fotos: Sambas Concorrentes 2010 e O Cacimbo

Bon Jovi – This Ain’t A Love Song

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