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Uma Garrafinha Cheia de Nada

Tenho uma garrafinha de cristal muito elegante e delicada. Ela está cheia de Nada.

É linda a minha garrafinha cheia de Nada. Umas vezes é cor de fogo, outras azul com nuvens brancas. Tem gravada uma roseira brava que, ora dá rosas vermelhas de sangue, ora lhe crescem umas brancas de neve.

A rolha é em forma de lágrima, mas não chora. É uma rolha sorridente, colorida como o arco-íris.

Há quem pense que a minha garrafinha está cheia de Tudo, mas é ilusão, ela é uma garrafinha cheia de Nada. Se estivesse cheia de Tudo não era uma garrafinha, era um frasco alto ou um pote bojudo cheio de Tudo. É que o horizonte do Tudo e do Nada estão na imaginação. No que quisermos lá meter. Na garrafinha cheia de Nada.

Ontem destapei a minha garrafinha cheia de Nada e o Nada entornou-se. Desapareceu. E para ali fiquei eu com a garrafinha na mão, de Nada entornado. Parece uma coisa de nada, mas para mim é tudo; também para a minha garrafinha, que agora está vazia de Nada. Do nada surgiu-me a ideia do Nada procurar. E lá fui eu.

À cata, à cata Maria Sapata… perdi uma coisinha que me faz muita falta! Essa coisinha é o Nada… Cantei eu, baixinho, no ritmo próprio das feiticeiras. E repeti três vezes, sempre na cadência apropriada para a magia se realizar.

– Estou aqui, senhora! Ei!… olhe nesta direcção, estou aqui. – Gritou o Nada da minha garrafinha. Estava dentro de alguma coisa, ou de fora de coisa nenhuma.
– Mas onde? – Respondi feliz, cheia de esperança de nada.
– Aqui! Mesmo entre o Sol de fogo e a roseira brava.
– Mas onde estão as rosas?
– As rosas estão lá. Agora são brancas de neve… repare!…
– Mas então, porque fugiste de dentro da garrafinha cheia de nada, Nada?
– Porque imaginei libertar-me da inexistência de Tudo. Estava cansado da ausência de espaço e do vazio do Nada. Ou seja: de mim mesmo!
– Nada, não te atormentes com pormenores improfícuos. A liberdade do Nada passa pela aniquilação do Tudo. É tudo ou nada.

Bem, aquelas palavras eram só para animar o Nada, porque o Nada é  Tudo. Mas eu gosto muito dele. E o Nada lá entrou dentro da garrafinha. Depois coloquei a garrafinha cheia de Nada em cima do toucador. A rolha em forma de lágrima sorriu-me em jeito de mar.

10 thoughts on “Uma Garrafinha Cheia de Nada

    • Depende de quem lê. O sentido das palavra está naquilo que queremos ver nelas. São como Deus. Cada qual vê-o da maneira que mais lhe agrada. Há até quem não o veja. Outros ainda simplesmente não querem vê-lo.

      Obrigada pelo comentário!🙂

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  1. Ola Luisa.
    Qual a diferença entre Tudo e Nada? Quando se diz “não ter Nada” é… ter Tudo? E a tua garrafa estava cheia de Nada ou vazia de Tudo? RSRSRS.
    Beijinho.

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  2. Fiquei encantado com o texto amiga.
    O texto me chamou muito a atenção, pois minha esposa tem uma garrafinha, tipo a da ilustração do post, e obviamente está cheia de … nada.🙂 rs
    Já repassei o link para ela ler.
    Abraços minha amiga.
    Fernandez.

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  3. Luisa, voce me desculpa, estou meio que ausente, tentando me empurrar para fazer alguma coisa, como ler, escrever e ate comer. Sei que entende…. beijinhos

    Obs.: eu adoro esta musica.

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  4. Eu tinha uma garrafinha cheia de Nada. Era de cristal, presente de casamento.Ficava lá, guardada na estante, enfeitando as paredes de madeira.

    Tinha um peso enorme e quando era dia de faxina, o medo de quebra-la, obrigou-me a guarda-la mais guardada ainda. Por isto, foi pra o baú, embrulhada em muitas folhas de jornal, pra não quebrar.

    Um dia, pensando nisto, descobri que esta atitude a faria, além de ser cheia de Nada, ser nada, por não preencher nem aos olhos.

    Hoje, ela esta de volta a cristaleira. Cheinha e cheirosa de Cachaça, da boa, da terra. Agora, reluz o líquido dourado e quando partilhada, aumenta as gargalhadas. Já não tenho medo que se quebre. Um dia tudo se vai mesmo!

    Bjs pelo lindo texto! Vc escreve divinamente.

    Valéria

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  5. Belíssimo texto, o tudo e o nada podem estar diretamente relacionados, depende do momento, da pessoa, do lugar, do estado de espírito…
    Eu, assim como o José Sidney, também aceito um gole dessa tua garrafinha cheia de nada rs, beijos.

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