Início » ...na minha Opinião » O Congresso de MIM

O Congresso de MIM

Estou em reunião. Não, estou em Congresso… isso…  assim soa muito melhor! Sou a secretária geral e única militante do partido MIM. Por muito mal que pareça à primeira vista, nariz, ou mesmo ouvido, esta é a pura realidade.

Ontem agendei este Congresso com conhecimento a todos os participantes, eu mesma; fiz uma longa ordem de trabalhos que distribui a todos os intervenientes, que sou eu. Elaborei algumas moções de censura, repúdio e confiança, as quais dei a ler a todos os Congressistas. Eu própria.

A democracia impera neste evento. É um Congresso Democrático.

Abri a porta da sala de congressos, disse “bom dia” aos que já lá estavam dentro. Era eu – Presidente – e eu própria – militante do partido de MIM. Fechei a porta da sala. A bem dizer não é uma porta. É apenas uma abertura por onde podemos transitar. Mas, quando a crise terminar será uma porta! Sentei-me à mesa. Depois verifiquei que não tinha secretária e fui eu própria – Presidente – buscar a papelada necessária para tão importante evento. Infelizmente a pomposa mesa de congressos, de vermelho vestida e repleta de flores, não passa de uma pequena secretária. Mas eu vou continuar a chamar-lhe mesa do Congresso. Assim tem mais impacto. Na mesa de trabalhos estavam pilhas de livros, revistas e cadernos que tive de empoleirar cuidadosamente, para poder ver o monitor do PC. Sim, porque isto não é um Congresso qualquer. É um Congresso digital.

Bati com os nós dos dedos na mesa, para que os Congressistas, eu própria, me dessem atenção, e iniciei o primeiro ponto da ordem de trabalhos: Reflexão e Análise.

Ponderando as bases – que são os pés – verificamos que, na Primavera que se avizinha, temos que calçar dez pés. Analisando a estrutura financeira, concluímos que só poderemos comprar cinco sapatos. Este facto insólito gerou algum desconforto entre os presentes – eu própria – e optámos por deixar a solução deste pormenor para mais tarde.

Meditando sobre as calças, descobrimos que a grande maioria estavam pelos tornozelos e com remendos nos joelhos. Para a coisa ficar bem feita, propus que se comprassem cinco pares de calças. Mas o mapa das receitas olhou-me carrancudo. Verificamos atentamente a frieza dos números; concluímos que, com uma enorme ginástica,  poderíamos adquirir dois pares e meio de calças. Mais um problema para resolver.

Dei voltas e reviravoltas à cabeça, mas não encontrei solução. Finalmente, como compete a qualquer Presidente de Partido, tive uma ideia brilhante: iríamos expor o caso aos candidatos à PR. A três dias das eleições, tive a certeza que eles iriam dar a este caso bicudo a devida importância. Mas não, nenhum daqueles senhores me atendeu. “Desculpe, o Dr. Cavaco está com a agenda cheia até 14 de Setembro de 2014”; “Gostaria muito de ajudá-la, mas o Dr. Alegre está triste com a sondagem (apenas 15% dos votos) e não atende ninguém. Não se conforma e chama batoteiros a todos os seres vivos.”; “O Dr. Nobre? Ah, é um homem muito sensível, estou certa que a ajudará. Mas agora não pode atendê-la. Anda a tentar convencer o Dr. Alegre a desistir da candidatura, para puder derrotar o Dr. Cavaco, na 2ª volta”.

Estava o caldo entornado! Afinal estes candidatos à PR, estes futuros símbolos da Nação, eram iguais aos da legislatura anterior. Andavam tão ocupados com a campanha que não ligavam às bases. Ficamos tristes lá no partido de MIM. Sem a ajuda que, momentos antes, tínhamos considerado a salvação do lar, erguemos a cabeça – eu presidente e eu mesma militante – e decidimos: seriam adquiridos três pares de sapatos e dois pares de calças. Assim batia tudo certo! No partido de MIM gostamos de decisões rápidas e pouco dramáticas. Num segundo encontro, seria discutido quais os dois membros da família que andariam descalços, e os três que teriam de vestir calças remendadas e acrescentadas.

Uffff…. as bases e parte da estrutura de apoio já está decidida.

Fizemos um intervalo para tomar fôlego e ver as notícias. “Os funcionários públicos vão hoje ver os seus salários mais pequeninos” – o que dizer disto… o mais adequado é comprarem uma lupa; “A Fenprof vai avançar com queixa contra agentes policiais” – têm todo o meu apoio. Os professores também têm direito de se manifestar e furar os “cordões” da polícia; “O governo vai vender os CTT” – Deve pensar que assim se governa. E agora quanto me irá custar um simples selo, quando quiser enviar um cartão de aniversário a alguém? “O Vaticano terá aconselhado bispos irlandeses a esconder padres pedófilos” – Esta é boa! Só espero que não os escondam numa escola primária, disfarçados de auxiliares de educação.

P’ró Congresso!… Acabou-se o intervalo.

Passando aos acessórios: meditando sobre os cintos, reparámos contentes, eu e mim, que não há necessidade de adquirir nenhum, basta fazer uns furinhos em todos eles, porque já estão muito largos, e pronto, ficam um mimo! “Pensavam que a austeridade era só tristezas, não?” Perguntei eu ao auditório com um grande sorriso nos lábios. Todos os presentes, eu presidente e eu militante, me olharam com cara de poucos amigos…

Depois verificamos cuidadosamente a questão da educação e lazer; analisando o mapa financeiro, concluímos que não havia verba para mais visitas de estudo. Decidimos que as crianças só participariam neste tipo de actividade, se fossem financiadas pela escola ou autarquia. Os desportos praticados três vezes por semana, foram reduzidos para uma vez por semana.  Quanto ao cinema, cada membro da família poderá ir de cinco em cinco meses. As verbas disponíveis apenas contemplam um bilhete por mês.

Posto isto, eu, como presidente de MIM, apressei-me a aprovar por unanimidade este Plano de Sobrevivência. As vozes dissidentes de MIM, poderiam protestar à vontade. O Plano seria posto em prática de imediato, sob pena dos tachos, pratos e talheres deixarem de ser utilizados. De seguida aprovamos todas as moções, também por unanimidade.

Para que a ordem de trabalhos ficasse completa, fiz o discurso de encerramento, como mandam as regras. Discursei de mim para mim.

Mim! É com muita emoção que me encontro hoje aqui comigo! Se não fosse eu mesma, como poderia, alguma vez, dar o melhor de mim, para fazer face às reais necessidades desta família?! O Plano de Sobrevivência que tracei para eu mesma e para a prol é dispendioso, original e arrojado. O Plano de Educação e Lazer, tem custos dolorosos para mim, mas terá de ser motivo de alegria para todos. Tenho a certeza que MIM tem condições para eu levar a bom porto, o projecto proposto! Obrigada!”, e bati uma grande salva de palmas a eu mesma.

Com este Congresso de MIM, tão participado por eu própria, tudo leva a crer que serei reeleita Secretária-Geral do Partido de MIM.

Advertisements

12 thoughts on “O Congresso de MIM

  1. Ola Luisa.

    Gostei deste Congresso.Brilhante a maneira como o descreves.
    Acho que cada vez mais, infelizmente, estes Congressos se multiplicam, e não só por causa da crise.
    Beijinhos

    Gostar

  2. Lu,
    Adorei e dei muitas risadas! Sua criatividade diante da crise, me fez renovar o desejo de ir-me embora para sua terrinha. Ainda ando com essas caraminholas a consumir-me o cérebro, afinal, mãe portuguesa sempre dá uma certa nostalgia, mesmo nunca tendo ido,
    bjks

    Gostar

    • Ai Cris, que bom seria conhecer-te!
      Mas a crise por cá está cada vez pior. Já há muita gente que mal consegue sobreviver com o pouco que ganham e com as reformas miseráveis que recebem, depois de uma vida de trabalho.
      Beijocas

      Gostar

  3. Querida Presidente (Luísa),
    Não és, certamente, a única líder de partido Único no mundo a fazer este exerc´´icio de auto-reflexão. Eu mesmo, em épocas traumáticas e de “vacas magras”, já presidi debates acalorados entre eu e eu mesmo (ego e alter-ego??) por várias vezes. É necessário, de vez em quando, por a casa em ordem e fazer um balanço.
    A vida não está nada fácil, aí e cá no Brasil, e acho que em lugar algum! Vejo que aí, em Portugal, a situação está a se agravar ainda mais, não? Será que somos co-irmãos até no que toca à ineficiência de nossos governos?? Mas, que destino!!
    Adorei, mesmo, o estilo satírico e reflexivo de tua crônica! Agrada-me, deveras, estilos novos!
    Beijos!

    Gostar

    • Ebrael, parece que esta crise é global. Não há um cantinho neste planeta onde o povo viva sem preocupações básicas. A coisa está mal para todos, mas os que sofrem mais acabam por ser os reformados, que já não podem “dar um jeito”.

      Beijos

      Gostar

  4. Que Post Fantástico!
    Amiga Luísa:
    Eu estou muito feliz com a guinada que você deu em sua vida assumindo por completo a presidência do Partido de MIM. O você tem toda a razão, uma vez que o exercício do mandato é vitalício e compete prioritariamente a você mesmo atomizar o MIM para que consigas enfrentar aos demais, em face das elevadas decepções e pernadas as quais já fostes vítima de outros partidos que não te deixam em paz, aumentando juros galopantes, regulando os preços dos alimentos, retirando alternativas e perspectivas de vida de seus correligionários – de você mesma-. Olha vou te contar. O seu artigo é absolutamente maravilhoso, profundo e reflexivo!
    Sempre a frente minha amiga!
    Abraços fraternos,
    LISON.

    Gostar

    • Lison,
      Aqueles senhores, que nós próprios elegemos e em que acreditámos, são iguais ao anteriores e certamente os vindouros não lhes vão ficar atrás. Infelizmente, somos nós que temos que nos adaptar aos seus caprichos. Sabemos que as coisas não estão bem em termos globais, mas estariam certamente melhores se os que mandam no país o gerissem racionalmente, sem corrupção, esbanjamentos e proveitos próprios, que os caracterizam.
      Abraços

      Gostar

  5. eheheh

    Muito boa!
    Essa fez-me lembrar uma peça de teatro muito antiga em que a actriz era a Júlia costureira e a Júlia patroa e, passavam a vida a discutir por causa das reivindicações da Júlia costureira.
    Neste caso considerando o sucesso do projecto de austeridade, implementado pelo partido MIM, tudo levará a crer que será reeleito já nas próximas eleições.
    Por MIM estou de acordo com o que foi dito.
    A bem da Nação, viva Portugal e o aperto do cinto…
    Abs

    Gostar

  6. Grande amiga me arrependo de não ter vindo antes a seu espaço e ter vindo conferir esta pérola de Crônica tão enxuta e com uma leveza sem duvidas algumas que nos fazem sentir muito bem com sua escrita nesta brilhante leitura que fiz, e que vou repassar aos amigos para não perderem se estiverem bem atentos!

    Gostar

Bote abaixo!...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s