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Conversas da Treta

As conversas da treta surgem aos montes e de todos os lados. De manhã ligo a TV e todos os canais exibem programas da treta, com as respectivas conversas, evidentemente. A seguir desligo-a – graças aos céus tenho essa opção. À noite ligo a TV e lá vêm os políticos, analistas políticos, economistas, autarcas e afins com as suas conversas da treta. São tão refinadas e de elaborado vocabulário, que até parecem conversas sérias e cheias de conteúdo. Mas, as que me custam mais a suportar são aquelas que surgem pela manhã. Sinto-as  dentro da minha cabeça, como um comboio a vapor a apitar dentro de um túnel.

Passado o impacto da intrusão, acabo por me penalizar por todos os pensamentos pouco edificantes que entretanto me passaram pelo cérebro. Em boa verdade, eu sei que a grande maioria das pessoas que fazem este tipo de converseta, o fazem com a melhor das intenções e boa educação. São boas pessoas, amorosas e prestáveis. Quase todas são merecedoras do meu carinho e atenção. Mas é mais forte do que eu! Não suporto. Fujo a sete pés deste tipo de diálogo, sempre que é possível. Chego mesmo a fingir que me esqueci de qualquer coisa em casa, e perder de propósito a boleia do elevador! Mas há dias em que isso não é possível, e, tenho mesmo que sustentar uma, enquanto o elevador não chega ao 15º andar.

– Bom dia vizinho!
– Bom dia, vizinha, como está?
– B’dia… – balbucia a minha filha.
– Bem, obrigada e o senhor?
– Bom dia minha linda! Eu vou andando… Vai levar a menina à escola?
Pergunta da treta, pois ao meu lado está a minha filha de sete anos, a arrastar uma mochila com a mão direita e na esquerda segura uma pequena lancheira. O seu rostinho, meio adormecido – são 7:50h – está encostado ao meu peito.
– Vou, sim.
E para a criança:
– Vais para a escola, pequenina?
Pergunta da treta, pois para além de todas as evidências de que a criança vai efectivamente para escola, eu já tinha respondido à pergunta.
– Vou… (muito sumido)
– Menina, o vizinho Antunes fez-te uma pergunta. – Digo eu com voz firme, culpando-me interiormente por esta repreensão da treta, pois a criança está certamente no meio de um sonho maravilhoso, onde a protagonista é ela, quiçá, transformada em pássaro sobrevoando o parque, e livre do trabalho da escola.
– Vou sim, senhor. – Responde a garota com manifesta má vontade, de quem foi violentamente acordado dum sonho idílico.
– Nunca mais chega… o elevador… a administração prometeu substituir…
Conversa da treta, pois para além de estarmos os três em frente à porta do elevador, ainda não entramos nele, é lógico que não chegou. Além do mais, toda a gente sabe que as administrações, sejam do que for, prometem muito mais do que fazem.
– Pois é, mas esta hora estão todos a sair de casa… temos que ter paciência… – “Não…” implorei a todas as divindades, “a sega-rega da má administração do condomínio não… não… chega elevador… chega…”
– Já se começa a sentir um friozinho de manhã…
– É verdade…
Conversa da treta, a temperatura do ar é uma coisa a que todos têm acesso. Não envolve custos, é uma dádiva da natureza, por isso de distribuição gratuita, logo, ricos e pobres, gordos e magros, altos e baixos, honestos e pulhas, policias e ladrões, todos, sem excepção, sentimos.
– Mas durante o dia ainda faz muito calor… é por isso que nos constipamos.
– Pois é… – Pedi um milagre a todos os santos com essa função.
– Olhe, eu nem sei o que vestir, outro dia… Ah, cá está ele!…
O meu rosto iluminou-se num enorme sorriso e, muito baixinho, agradeci a graça aos santos milagreiros. Decididamente, o meu humor matinal é irascível.

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E agora Corazón Partio do borracho Alejandro Sanz, para suavizar o espírito.

<!–

10 thoughts on “Conversas da Treta

  1. Olá, Luisa!
    Legal o seu blog; o texto idem. Parece que o humor da mulher, quase de todas, é assim pela manhã (rs)… Faz parte… Assim, a menos que elas puxem conversa, é melhor ficar só no bom dia… rsrsrs
    Bjs.
    Paulo

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  2. Lú,
    Também a mim irrita essas conversas, não apenas pela manhã, mas ao longo do dia. Confesso que fujo delas sempre que possível, pois sempre é seguida de resmungos e reclamações.
    bjks

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  3. Oi Luísa, fiquei aqui penalizada com o pobre vizinho tão simpático, fazendo perguntas tão inteligentes…

    Acho que você lembra que eu sou especialista neste tipo de conversa, onde a gente fala, fala e ninguém diz nada que se aproveite…rs.

    Mas numa coisa sou solidária com você. Aguentar esse tipo de coisa de manhã cedo é triste. Sempre poupo minhas vítimas neste horário, já que eu também não tenho a menor disposição para incomodar ou ser incomodada.

    De qualquer forma, acho que você tem muita sorte de morarmos distante e de não correr nenhum risco de me encontrar…

    Bjs

    P.S. Saudades…

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    • Denise,
      Que surpresa boa ver-te aqui!🙂
      Como deves ter reparado, este artigo, assim como a grande maioria neste blogue, são histórias já publicas num outro site, do qual tive que desistir.
      Ainda te devo uma réplica a esta história… não me esqueci!😀
      Vamos ver se nesta fase eu a consigo fazer. Aguarda-me…
      Beijos e saudades!

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  4. Olá amiga Luisa!
    Mas é verdade… tem muita conversa deste tipo…
    Acho o máximo quando você chega todo molhado no trabalho e alguém te pergunta “Está chovendo?”… o que responder a isso? quem sabe um “não! é que todo mundo na rua resolveu cuspir em mim.”😉 rs
    Adorei o texto amiga.
    Beijos, Fernandez.

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  5. Olá Luísa:
    Gostei de mais este texto tão eloquente e tão próprio de uma cronista de excelente qualidade, como é o teu caso. Realmente os “óbvios” não deixam de ser irritantes, principalmente quando vindos de pessoas que os usam para “meter conversa”. São os chamados “chatos”. É “óbvio” que eles não têm espelho em casa! Poderemos, eventualmente, confundir esses “chatos” com aquelas pessoas solitárias que necessitam de um retorno aos seus “dizeres” para, desta forma, conseguirem o embalo para enfrentarem o seu pobre dia a dia. Nada como darmos o nosso melhor a essas pessoas tão sós e esquecidas até pela própria família.
    Beijinhos do eDu!

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  6. O problema do ser humano são as convenções sociais!Todos aqueles protocolos e maneirismo que mascaram a verdade com uma hipocrisia forçada (digo forçada pois o termo “hipócrita” assume seu primeiro significado, o “teatral”) e forçam conversas avulsas quando na maioria das vezes nem estamos com vontade de dialogar ou suportar um diálogo!Fico pensando se nossos pais nos ensinassem uma sinceridade não agressiva, e educada, onde pudessemos dizer, e suportar ouvir aquele simples:
    -Não tô afim de papo hoje!
    Acho que as conversas seriam mais produtivas, as amizades seriam mais verdadeiras se houvesse essa adaptação ao que é a realidade da existência e das relações!
    Muito bom seu texto!E o melhor de tudo é que me identifiquei com ele!hehehehe!!!

    Ps.:Muito obrigado por seguir meu Blog!Abração!

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  7. Querida amiga Luísa,

    Pois, pois, como dizem por estas bandas, aqui chamamos de “lero-lero” as tais conversas da treta. Contudo, creio eu, sendo essas “tretas” entre vizinhos ainda são melhores que aquelas que escutamos dos nossos políticos. Moro em Curitiba e aqui, dizem, temos o povo mais europeu do Brasil. Isso porque não gostam de conversar, nem sequer um Bom Dia….Sei lá…..sou nordestino e o calor da minha terra deve ter “contaminado” minha alma.
    Sou um fã dos vossos escritos.
    Abraços,
    Herval

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