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À Procura de Si

“Vamos lindo…” Sigo o som da voz. “Anda mor… não tropeces.” Sou prisioneiro da noite apoiado naquele corpo voluptuoso. Os meus sonhos foram castrados pelo álcool e por uma donzela da noite. Ela teceu uma rede invisível à minha volta e agora sou seu vassalo. Não me importo, porque já não pertenço a lugar nenhum. “Vamos ao Destino… diz que sim fofo!” Vagueio pelas ruas de Lisboa à procura do Destino; uma espelunca onde ainda tenho licença para entrar.

Sentado numa mesa do cabaret sinto o calor envolvente dum corpo jovem. Uma gargalhada feliz arranca-me a pensamentos sombrios. Nem sei se são sombrios, ou sequer pensamentos. Um beijo cheio de promessas enche-me de orgulho. Mais um copo. As amarguras são tragadas por uma onda acre de whisky barato. Agora sou uma criatura viva. Inebriado e dormente já não me lembro de outras vidas que imagino ter vivido.

“Paizinho… Chegaste!” Um rostinho sorridente de criança aflorou a minha memória turvada. Pergunto-me se será o meu filho. Recordo-me vagamente do o abraçar, mas não me lembro se alguma vez joguei à bola com ele. Nestes momentos envolve-me uma dor que nunca será suficientemente triste. Mas é breve. “Anda dançar comigo, fofinho…”

Outro copo. “Vou dançar, amor”. “Vai, vai, adorada”. Vê-la dançar só para mim é um prazer indescritível. Tento erguer-me, mas uma âncora invisível deixa-me sentado no banco. E fico ali a olhá-la com ternura. “Tu não estás bem, querido…Intrusos. …tens que pedir ajuda.” Vozes que ousam invadir o meu cérebro. “Eu marco uma consulta no psiquiatra, está bem?…” Vão de retro demónios! Não percebem que eu agora sou uma criatura primitiva, livre, sem amarras nem responsabilidades. Tudo o que sou ou serei, é um lampejo no olhar da dançarina.

 

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8 thoughts on “À Procura de Si

  1. OI minha querida Luíza… que crônica forte…. me lembrou um amigo que tinha que conviveu com a esquizofrência durante muito tempo….. me lembra as divagações que ele tinha quando em crise….
    Mas me diz…. que não vive com a esquizofrênia da vida????
    Beijo no coração

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  2. Oi Luisa!

    Quantas conversas assim, quantas noites parecidas… Nas ruas de Lisboa ou de São Paulo. Quem sabe, até Paris. Mas a amargura inebriada pelos excessos da solidão são a nossa única e fiel companheira.

    Um brinde ao ser humano, heróico sobrevivente de si próprio. O meu, com duas pedras de gelo, por favor rsrs

    Ótimo Luísa.

    Beijos

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  3. Crônica forte, atualissima em qualquer parte do mundo.
    A solidão do mundo moderno leva a esse tipo de situação retratada onde as pessoas buscam a sí mesmas e muitas das vezes não encontram.

    Parabéns pela postagem.

    Abraços

    Expedicionários

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  4. Ola Luisa.
    Muito bom o texto. Muita gente se perde nesse bar “Destino”. Bar de alterne cheio de pessoas sós. É nesse “Destino” que muitos se deixam ficar a beber copos e a apalpar bailarinas “voluptuosas”. O pior é que não querem sair de lá.
    Gostei! Continua!
    Beijinho.

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  5. E assim vai morrendo cada dia já sem passado nas lembranças turvas e sem futuro pois o presente é ausente muita gente morre pensando estar vivo!

    Abraço!

    Manoel

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  6. Ser prisioneiro é ver morrer os sonhos fugazes, que em vão buscam liberdade. Aprisionado nas teias da dama da noite, que tece o destino dos embriagados,
    é um viver delirante, que dá passos trôpegos, numa valsa interminável.
    E nesses braços mórbidos, caminhas pelos jardins da morte.
    http://bollog.wordpress.com
    Divulgue e comente!
    Abraços, José Maria Cavalcanti.

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  7. Estou de volta a este cantinho gostoso que se faz minha fuga nos momentos em que necessito mergulhar nas coisas do coração.
    Gostaria que você pusesse meu site nos favoritos desta linda vitrine.
    Obrigado pelo carinho e atenção.
    http://bollog.wordpress.com
    Abraços, José Maria Cavalcanti

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