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Os Mistérios da Velha Anta

Velha anta

A Velha Anta

“Não se pode pisar aí…”. Eu olhei para eles com aquele ar interrogativo-displicente de quem se está marimbando para o que se pode ou não, porque eu ia lá entrar mesmo assim. “Há espíritos vingadores debaixo dessa terra.” Ahhh… isso era outra coisa, assim a gente já se entendia. A minha imaginação de imediato se encarregou de pintar um quadro estranhamente belo e hediondo. Da terra forrada de musgo fofinho emergia lentamente um espírito idêntico ao do génio da lâmpada de Aladino, só que este era mau. Afastámo-nos cabisbaixos, envergonhados pela impotência de enfrentar tão vil criatura; apressamos o passo até à corrida, até porque o chamamento materno já se fazia ouvir para o almoço.

“Mãe, há espíritos vingadores na velha anta?” A minha mãe continuou a servir a sopa enquanto respondia. “Não.” disse, “Claro que não… Estiveste a falar com a Ti Eugénia da várzea?” Perguntou. “Nem a vi, foi a Zézinha e o Chico que me contaram.” Confessei, considerando que uma conversa com a Ti Gena, se calhar era muito interessante. “Não te quero a brincar tão longe de casa e muito menos debaixo da anta. É um perigo… se aquelas pedras caem…”

“Pai, há espíritos vingadores na velha anta?” O meu pai aspirou o fumo do cigarro e atirou a beata para a sementeira de alhos. “Os espíritos não existem. E mesmo se existissem, com certeza não seriam vingadores!” Pronto. Afinal era tudo mentira. Mal podia esperar pelo dia seguinte para contar ao Chico e à Zézinha. Podíamos brincar dentro da anta sem qualquer perigo. “Mas… é melhor brincarem noutro sítio. Sabes que as antas são monumentos?” Olhei para o meu pai com mal dissimulada incredulidade, tentando encontrar paralelos entre uma anta e um castelo. Certamente castelo era o único conceito de monumento que eu tinha na altura. De qualquer modo, tinha a certeza que o meu pai estava redondamente enganado. “É verdade… há muitos milhares de anos, quando os homens ainda viviam em cavernas ou em casas feitas de troncos e palha, levantavam aquelas pedras para os deuses, ou para enterrar os mortos… não se sabe ao certo. Então…”

E a história continuou, não sei por quanto tempo, até porque na minha cabeça já se delineava o dia seguinte: sair de bicicleta com os meus amigos e ir até à velha anta; entraríamos lá dentro, mesmo que fosse só por uns momentos, isto porque não convinha perturbar os mortos nem sermos apanhados por uma pedra a cair.

“E não se afastem muito” disse a mãe do Chico, “nem vão brincar para as antas, é perigoso…”, advertiu. “Está bem!”, respondemos em coro. E assim se cumpriu o dia seguinte em frente às velhas pedras proibidas. Primeiro no cerimonial próprio de quem não quer entrar é porque é mariquinhas. Mas, depois de pisado o solo sagrado debaixo da enorme pedra, e passada a fase de adaptação ao estatuto de heróis vencedores de espíritos tenebrosos, entrávamos e saíamos da anta – sempre num segredo só nosso – com a deferência dum ritual antigo.  Inventámos pequenos espaços onde nos era permitido pisar e nunca, por nunca, tocávamos nas pedras.

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16 thoughts on “Os Mistérios da Velha Anta

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  3. Luisa, não há época em que as Tradições nos influenciem mais que em nossa infância. Estórias folclóricas luso-açorianas construíram a alma de cá da capital de nosso estado, a saber, Florianópolis. Sou muito crítico em relação ao tipo de colonização deficiente que os lusitanos empreenderam aqui, assim como em todo o Brasil, mas a herança cultural e folclórica que nos deixaram é linda demais.

    Amalgamaram-se, juntamente com lendas indígenas nativas e africanas, folguedos como o do boi-de-mamão, o boi-tatá, a mula-sem-cabeça, a bernúncia, os folguedos de São João e as tradições de bruxas. Se procurardes a ilha de Santa Catarina, em que localiza-se Florianópolis, conseguirás vislumbrar a figura de uma bruxa e uma criança de colo, ambos de perfil, com direito a chapéu de ponta e mais.

    Todos os anos festejamos nossa herança tradicional de origem açoriana, e esse grupo de Teatro auxilia na perpetuação das memórias ancestrais de nossa terrinha. Assista:

    BJs em você!

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  4. A ideia da Dona Birica é genial, Ebrael! O vídeo é um espectáculo, a preservação das tradições são muito importantes na identidade de um povo. E a vossa, como diz o historiador, é ainda mais vasta, pois abarca as culturas locais e as africanas.

    Beijos!

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  5. Sou fascinado por tradições deste tipo.
    Esse tipo de atração que as crianças têm pelo folclore.
    Na verdade, qualquer coisa relacionada a folclore me fascina, ainda mais se for algo relacionado ao paganismo, como as antas do texto.
    Um costume livre de certos aspectos imundos que encontramos nas religiões modernas.
    Adorei este texto!

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    • Marlon, há muitos anos atrás as crianças não tinham tantos brinquedos como hoje, então, das lendas que nos contavam, inventávamos as nossas próprias brincadeiras. Nesse tempo e num meio rural multiplicam-se as histórias e o folclore local é muito rico! 🙂

      Beijos!

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  6. Bastante interessante conhecer o a Velha Anta! E como as crianças são sempre fantásticas ao especular, não é mesmo?

    Eu sou fascinada por estas coisas de história, cultura popular. Em uma cidade que morei, tinha a Semana do folclore. Nesta época, grupos de todo pais e do mundo afora, iam apresentar suas heranças folclóricas. Era a única festa que eu não perdia uma dia. Danças, comidas típicas, artesanato, casos e histórias! Um show!!!

    Mas confesso, sempre tive verdadeiro pavor de uma boneca de nome “Leonel”. Era uma boneca enorme, que um cara sustentava nos ombros e ia andando e dançado pela rua, com os braços sacudindo de uma lado para o outro. De vez em quando, fazia reverencias, abaixando aquele corpo enorme, na direção das pessoas.

    O tempo passou, o criador da tal boneca morreu e meu medo continua.

    Já grandinha, dei de cara com uma, em pleno centro da cidade a qual me referi no início desta conversa. Luísa, vc acredita que eu corri? Corri, entrei na primeira loja que encontrei e me escondi atrás do balcão. Suando frio. Assim como a boneca de Leonel, qualquer ser animado por pessoas dentro, eu corro léguas.

    Você e seus amigos foram corajosos. Espero que tenha mantido a coragem até hoje!

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    • Valéria, quando temos seis anos todas as histórias de espíritos, mouras, cavaleiros mortos que se materializam, bruxas e afins, têm no nosso imaginário uma vida muito própria. Naquele tempo as brincadeiras eram um pouco diferentes, pois não havia internet, nem jogos para PC, nem consolas… e os programas infantis na televisão tinham horários muito rígidos! (isto passou-se há quarenta anos) rsrsrsrs

      Mas, por falares em bonecas… sabes que eu ainda hoje tenho um pavor enorme de bonecas de porcelana? Nem gosto de olhar para elas! Curiosamente, mesmo sem ninguém de carne e osso por dentro delas dão-me a ilusão de terem vida! Brrrrr…..

      Beijos!

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  7. Se não fosse sua explicação ao JB eu estaria até agora pensando que “velha anta” fosse só um anta velha e gorda encostada no barranco de um riacho. Gostei do texto!

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  8. Entre a deferência, o respeito histórico e a imaginação acho que todos temos essas zonas de respeito ao numinoso!As vezes a recebemos de nossos antepassados, outras concebemos em processos psicológicos primais, mas não acredito que haja uma pessoa que escape desses mitos e manias!
    Muito bom texto!Parabéns!

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