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Um Encontro Inesperado [Capítulo I]

Pablo Picasso

Família - Pablo Picasso

Uma família feliz

– Podes ficar com o menino? É que eu queria sair… arejar um bocadinho, lavar os olhos, sei lá! – Brincou Laura, enquanto atravessava a sala, em direcção ao quarto.

– Claro que posso… – Respondeu o marido, interrogando-a com o olhar.

– Vou até ao shopping. Janto, compro um livro e vejo as montras. Depois vou ao cinema. Só irei ao cinema, se houver algum filme de jeito… Mas não esperem por mim, estou a pensar ir até ao Café Concerto. Está lá sempre alguém conhecido! O jantar já está pronto, só precisas aquecê-lo. – Sorriu e despenteou-lhe o cabelo. – Por favor, Little John, não deites o André muito tarde, tá bem?… E não bebas demais… – Ela tratava o marido por Little John, desde o primeiro dia em que se conheceram. Ele é particularmente alto e tem um rosto sorridente, então, de imediato imaginou, o grande e alegre personagem de Robin dos Bosques. Mário olhou para a mulher e esgueirou um sorriso.

– Fica descansada, hoje não me vou enfrascar. Vê lá, tem cuidado; se fores ao Café Concerto, tenta estacionar o mais perto possível da entrada. – Eram recomendações que ambos faziam, vezes sem fim, ao filho mais velho. – Depois à saída…

– Sim, já sei… saio acompanhada, ou então quando vir um graaande grupo, a ir embora… – Teatralizou ela.

– Nem mais!… – Mário pensou que era absurdo ela sair sozinha à noite, mas sabia que era inútil dissuadi-la. Além do mais, tinha quase a certeza – acontecia sempre, quando ia fazer compras pessoais –, que antes das dez da noite, Laura já estaria em casa. Cansada de cirandar pelo centro comercial, iria esquecer-se do cinema e do Café Concerto.

Mário e Laura Magalhães eram casados, ia para vinte anos. Dessa união nasceram Miguel, agora com dezoito e André, com oito. Eram um casal aparentemente vulgar e amigo. Do seu lar emergia a suave sensação de tranquilidade e amor. Eram uma família, bem cimentada na classe média, sem a mínima vontade de ascender na hierarquia social. Ambos trabalhavam no centro da cidade, o filho mais velho estava prestes a entrar na faculdade, e o mais novo frequentava uma escola particular.

Os Magalhães eram simpáticos, prestáveis e estavam sempre prontos a colaborar, nas diversas iniciativas comunitárias. Mas, os olhares atentos das vizinhas ociosas, já se tinham apercebido que eles, só muito esporadicamente saíam juntos, e nessas raras vezes, faziam-se acompanhar pelos filhos. A sua imaginação fértil, aliada às línguas viperinas, teciam histórias fantásticas, acerca dos novos hábitos do casal. Mas esta família, discreta e sem amigos íntimos no prédio, fingia não perceber as tentativas desesperadas daquelas pessoas, para saberem mais qualquer coisinha, acerca da sua intimidade. Algumas, as mais audazes, esforçavam-se por fazer incursões discretas na sua casa, alegando as mais diversas desculpas.

– Vizinha, já viu que os do 4º A?… Agora fazem barulho até de madrugada. Não deixam dormir ninguém!

– Olhe, do meu lado, não se ouve nada D. Antónia. E francamente, não tenho nada que dizer deles, apenas que são pessoas simpáticas e bem-educadas. – Respondia serenamente, sem dar azo ao desenrolar de queixas, fossem elas reais ou imaginárias.

Ou então – esta estratégia era a mais usada – batiam-lhe à porta para pedir qualquer coisa.

– D. Laura, desculpe a maçada, mas tem uma cebola que me dispense?

– Claro, D. Ana, e não maça nada, disponha sempre! Aguarde só um minutinho enquanto a vou buscar. – Educadíssima, ria interiormente e encostava ligeiramente a porta, para não lhe encorajar a enorme vontade, de entrar e coscuvilhar.

Na realidade, o comportamento de Laura atiçava ainda mais, as especulações maliciosas acerca dos Magalhães. Mas, esse facto parecia não os incomodar.

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49 thoughts on “Um Encontro Inesperado [Capítulo I]

    • Carlos, muito obrigada pela tua presença. Na próxima semana estará o capítulo seguinte! 🙂

      Ontem não consegui responder ao teu comentário, então hoje, como fazes anos, aproveito para te desejar um Feliz Aniversário! Parabéns!! 😀 😀

      Abraços!

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  1. Luisa minha querida…. estava esperando este capítulo…. incrível como você tem o dom da escrita. Seu texto é crítico e ao mesmo tempo leve, cotiano nos poros!
    Sem contar a realidade que consegue dar aos personagens…. parece que estamos vendo as cenas…..até fiquei imaginando as fofoqueiras de plantão arranjando desculpas para tentar descobrir os mistérios que ronda o apartamento do casal….hehehehe
    Aqui no meu prédio isto acontece comigo…. eu adoro ver a cara delas quando não conseguem descobrir nadinha,….kkkkkkkkkkkkkkkk
    Agora vamos aguardar e ver por onde Laura vai passar nesta incursão solitária!
    Beijo no coração

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    • Olá querida Valéria! 🙂

      Estou para aqui a imaginar as tua vizinhas… 😀 😀 E o pior é que elas ficam como baratas tontas a tentar coscuvilhar! É aquilo que eu chamo curiosidade mal dirigida!! 😀 😀
      Amiga, muito obrigada pelo teu incentivo e carinho.

      Beijinhos!

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  3. Olá minha querida, parabéns, é uma produção muito bem feita. Que Deus em Cristo Jesus venha te dar sempre vida, saúde e muita graça, bem como o seu mais puro e terno amor seja derramado sobre a sua pessoa, pois são poucos que possuem um dom tal, um grande abraço e um ótimo final de semana.

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  4. Pingback: Um Encontro Inesperado [Capítulo I] - Plik

    • Olá Expedito! Muito obrigada, por acompanhares a minha tentativa de escrever algo, com uma história, mesmo que simples. Aguardo as tuas críticas e recomendações. Na verdade, nunca tinha escrito nada deste género, por isso ando um pouco perdida 🙂
      Eu também estou a acompanhar “Ilynx”, no espaço que criaste para o efeito.
      Abraços!

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  5. Olá Luísa, minha querida!
    Adorei! Estive acompanhando algumas semanas atrás, um conto muito interessante publicado por nosso amigo Fábio Martins, e lá comentei que alguns contos, de tão bem elaborados, nos prendem capítulo a capítulo, muito mais do que novelas.
    Pelo que posso ver aqui, no seu, vai acontecer o mesmo! Esse “mistério” em volta dos personagens cria uma atmosfera de suspense que nos prende do começo ao fim, fazendo com que queiramos saber mais sobre cada um deles.
    Parabéns! Vou acompanhar todos os capítulos e entrar nesse mundo dos Magalhães para saber as suas particularidades e segredos.
    Você é uma excelente escritora!
    Grande beijo,
    Jackie

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    • Olá Jackie, muito obrigada pelo incentivo!
      Eu também acompanhei “Uma Semana” do Fábio, embora o tenha feito “aos soluços” (2/3 posts de cada vez) 😀
      Mas o Fábio, o José Sidney, o Expedito e tantos outros, são escritores. Eu só estou a começar. E, confesso, estou um bocado perdida!! 😦
      Agradeço muito a tua presença e aguardo muitas criticas e sugestões! 😀 😀
      Beijocas!

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  6. Maravilha Luísa
    Há dois ou três dias que aqui não venho, e hoje fiquei agradávelmente surpreendida com o capitulo nº1.
    O conto promete. Como sempre, consegues envolver-nos logo nas primeiras linhas,
    é um começo cheio de energia. A Laura, que é o nome da minha mãe e várias pessoas da minha família, vai ter muito que nos contar. Já estou a simpatizar com os Magalhães, gente interessante.
    Pronto!… Fico a aguardar.
    Abraços

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    • Emília, eu queria muito que a minha filha do meio, se chamasse Laura ou Leonor, mas não foi possível, devido a desencontros de gostos. 😀 😀 Agora posso chamar às minhas personagens o que eu quiser… ufffaaaa

      Muito obrigada pelo incentivo!
      Abraços!

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  7. Olá minha querida amiga Luísa,

    Saudade de você, viu? Primeiro, você sumiu, e depois, fui eu……

    Amei o seu conto. Estava tão envolvida na leitura em busca do que Laura estaria tramando que só me dei conta que o primeiro capítulo do conto terminara ao gesticular como se fosse virar a página de um livro e continuar a ler…Ri sozinha do meu movimento…..

    Ficarei ansiosa esperando pela continuação.
    Carinhoso e fraternal abraço,
    Vovó Lili

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    • Lilian, que bom ver-te aqui!! 🙂

      Minha amiga, muito obrigada por leres a história, pelo teu carinho e incentivo! Vou postar aqui às quartas-feiras, isto se tudo correr bem, pois ando um pouco atrapalhada, a resolver algumas questões pessoais.

      Conto com as tuas críticas e sugestões! 🙂

      Beijinhos!

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  8. Luisa querida amiga

    Gostei muito de ler…a cuscuvelhice ha em todo lado…e ás vezes até dá vontade de rir…Fiquei curiosa pelo desenrolar do conto…

    bom domingo

    beijos
    joana

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  9. Lú,

    O começo do conto me levou a pensar que poderias escrever um belo livro, pois fiquei muito curiosa para saber o desenrolar dos acontecimentos. Estarei aqui na próxima semana.
    beijinhos

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    • Cris, olá minha amiga! 🙂

      Bem, escrever um livro, penso eu, requer uma história mais complexa do que esta!
      Embora, esta história até desse para transformar num romance! 😀 😀
      Para já é uma espécie de conto grande. Fico a aguardar as tuas críticas e sugestões!

      Beijinhos!

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  10. Olá, Luísa!
    Não conhecia esse teu cantinho, e confesso que estou feliz por tê-lo conhecido. Sem contar que o português de portugal me encanta! Não só na leitura, mas no falado, principalmente.

    A história está ótima! Pretendo acompanhá-la até seu final. Portanto, já ganhou um seguidor, pode ter certeza.

    Não sei se foi assim que imaginou, mas o prédio, pra mim, não tem elevadores, as escadas dão, praticamente, na porta de entrada, e a maioria dos moradores estão na meia idade.

    Beijos e que venha os próximos!

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  11. Fábio, muito obrigada por estares aqui!

    Eu confesso que ando mais ou menos atrapalhada com a história, mas penso que é por ser novidade. Até aqui não tinha escrito nada maior do que 800/1000 palavras, e, de repente, ver-me com imensas páginas, deixa-me perdida! 😀

    Olha, eu imaginei um prédio típico dos modernos subúrbios de Lisboa. 7/10 andares, dois elevadores; 3/4 apartamentos por andar, com escadas largas, mas com porta anti incêndio (as escadas não se vêm do all de entrada dos apartamentos) e habitado por pessoas no activo, mais jovens e menos jovens. As coscuvilheiras, imaginei aquelas pessoas do tipo noveaux riche, que se dedicam à casa e à família a tempo inteiro, enfim, têm tempo para dar conta da vida dos vizinhos, também! Não sei se para ti faz muito sentido, mas se eu arranjar uma foto com o tipo de casa deixo-te o link, lá no teu blog!

    Beijos!

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    • Luísa, é um prazer estar aqui. Acredite!

      Sei muito bem como você está se sentindo. Já passei por essa fase, também. No começo do blog, pelos idos de 2003, tinha o costume de postar os acontecimentos do dia, depois, passou pra impressões pessoais, depois por influências musicais, seguido de perto por pequenos contos até atingir o Livro que ainda pretendo terminar.
      Hoje, por outro lado, escrevo contos, porém, eles são longos, mas o mais forte está sendo as minisséries e cada capítulo tem aproximadamente 1300 palavras. Alguns atingem 2000, mas são raros. Portanto, relaxa que dará tudo certo, Luísa.

      Realmente, não foi dessa forma que imaginei, mas, agora, depois da explicação, sei bem do que você está falando. 😀 Fiquei um tempo em Portugal, na região de Odivelas e conheci alguns prédios desse jeitinho! 😛

      Beijinhos, Luísa!
      PS: se tiver a imagem, pode mandar sim! 😉

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      • Fábio, eu moro muito perto de Odivelas e conheço toda a zona saloia muito bem 🙂 Então sabes do que estou a falar! 😛

        Eu também vivi num desses prédios que imaginaste. Foi há muitos anos, quando vim para Lisboa – tinha 18 anos. Ele ficava no Bairro dos Actores, em plena cidade de Lisboa, ali à Fonte Luminosa, perto do Instituto Superior Técnico. Esse sim, era habitado quase na sua totalidade por pessoas de idade. Eu vivi lá, num quarto alugado, e a dona da casa era uma senhora já com uns 70 anos e viúva. Então alugava quartos a jovens meninas, como ela dizia 😀

        Mas isto de escrever um longo conto, quando não se tem muita experiência, é tarefa muito difícil. Parece que falta sempre qualquer coisa, que as ideias podiam ser melhor exploradas, que faltam factos para identificar ou reforçar certas ideias… eu sei lá! 😛 😛

        Mas é muito bom, quando temos apoio e incentivo dos amigos! Isso dá-nos a segurança necessária para ir em frente. 🙂

        Beijinhos!

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        • Luísa, tu fallando de Odivelas, parece que estou a andar pelas ruas, saindo do metro e indo para a casa do meu primo ou da minha tia. Cada lembrança, que se fosse um rapaz sentimental, choraria. 🙂

          Quando pensei no prédio, eu imaginava o prédio onde minha tia morava (não lembro o bairro), era um de 5 andares, sem elevador e com 2 apartamentos por andar. (muita saudade)

          Então quer dizer que tu não é lisboeta? Ou seria alfacinha? eheheh
          Esses lugares que você citou eu não cheguei a conhecer, ou, pelo menos, não sabia eu esse era o nome dos bairros, quando estive aí.

          Fique tranquila, Luísa, que sempre faltará alguma coisa! Eu tenho o costume de escrever, depois ler e reler pra ver se falta algo que ficaria interessante. Ainda mais quando não faço tudo de um tapa só, pois, hoje pode ser que meu ânimo não estava pra algo detalhado, mas amanhã, BUM detalhista ao extremo. E, assim, começo a modificá-lo pra dar uma encorpada. 🙂

          Luísa, pode ter certeza que estarei aqui pro que der e vier. (Aqui, no Skype, no MSN, no Facebook, em qualquer lugar). Precisando de ajuda, só chamar que terei o prazer em ajudar!

          Beijinhos

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          • Muito obrigada, Fábio! 🙂

            Se eu te puder ser útil, também podes contar comigo. Nem que seja para te mandar fotos de antigos conventos e palácios assombrados! 😛 😛

            Beijos!

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    • Olá, Marlon!
      Que bom que estás aqui. Espero que gostes e também aguardo, as tuas críticas sugestões! Elas serão muito bem vindas, de uma pessoa sensível como tu.
      Abraços!

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  12. Bom, muito bom… vamos ver, este jeitinho simples de dizer que ta tudo normal, apenas as especulações.

    Ao fundo, ouço a musica,,, trilha que anuncia muita emoção que vem por ai.

    Estou acompanhando!

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    • Bom dia, Valéria! 🙂

      Huummm… Tu és de Olhão e jogas no Boavista! 😛 😛
      (Isto é um trocadilho nosso: Olhão é uma vila algarvia e Boavista é um clube de futebol)

      Beijos e obrigada por seguires a história! Aguardo as tuas sugestões técnicas e criativas. 🙂

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  13. Saudações!
    Amiga Luísa:
    É hiper interessante o seu Conto. Vou aguardar o desenrolar dos acontecimentos.
    Parabéns por mais um lindo Post!
    Fraternalmente,
    LISON COSTA

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  14. Amiga, atiçastes a minha curiosidade…Comecei a ler, agora não paro mais en quanto não vir o final. Aliás, muito bem escrito; és uma escritora de valor!
    Estou indo agora para o segundo capítulo. BEIJOSSSSS

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    • Olá, Neusa!

      Esta é a minha primeira tentativa, de fazer um conto grande. Eu fico muito feliz por estares aqui a ler e a acompanhar. É muito importante para mim!

      Aguardo as tuas sugestões e críticas!

      Beijocas!

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  15. Olá Luísa!
    Não me surpreendeste com este primeiro capítulo.
    Os teus textos que vou lendo demonstram qualidade! E este não é excepção!
    Por isso, quando acabei de ler, pensei “fascinante!”. De acordo com as expectativas com que encaro os teus textos. Sem grandes comentários técnicos, a minha bitola para muitas coisas na vida é “gosto”, ou “não gosto”. Assim, digo-te simplesmente: “gosto”.
    Vou continuar a ler!
    Aproveito para te desejar uma Boa Páscoa!
    Bjs

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