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Um Encontro Inesperado [Capítulo II]

Nú

Nu azul - Henri Matisse

Preparando um passeio nocturno

Laura entrou no quarto e abriu a porta do roupeiro. Tirou lá de dentro, um bonito vestido estampado. Olhou-o, sentiu-o e voltou a pendurá-lo. Decidiu que preferia vestir, uma roupa mais moderna e prática. Escolheu, então, umas elegantes bermudas pretas. Dum gavetão do camiseiro, tirou uma camisola branca que, confeccionada numa malha macia, se ajustava ao corpo como uma luva. Exibia um longo e sexy decote em V. Retirou um cabide, onde estava pendurada uma blusa preta, solta e transparente. “Assim não te sentes tão nua, não é?”. Duma caixa de cartão, retirou uns elegantes sapatos italianos, de cor preta e com saltos altos. Voltou a arrumar a caixa, dedicando-se à difícil escolha da carteira. Pôs as pretas de lado. Depois das experimentar diversas vezes, acabou por escolher aquela, que considerou tão funcional quanto bonita. Colocou o conjunto em cima da cama e abanou a cabeça, num gesto de aprovação. Com o enfado escrito no rosto, mudou o conteúdo da pequena mochila, que usava diariamente, para a carteira que iria levar nessa noite. De uma gaveta, da mesinha de cabeceira, tirou uma caixa forrada de cetim azul. Lá dentro, reinava uma amálgama de bijutarias. Escolheu uns brincos e um colar, com grandes pedras translúcidas vermelhas escuras. Pensou que, o contraste, com o preto e branco das roupas, resultava muito bem. Com alguma surpresa sentiu-se excitada, como se esta fosse a sua primeira saída nocturna. Um sorriso iluminou-lhe o rosto e entrou na casa de banho.

Despiu-se. Em frente ao espelho, apreciou o seu corpo, com alguma nostalgia, mas sem saudades ou mágoa. Os músculos macios, já não eram tão rijos e lisos, como há uns anos atrás. Os seios, pequenos, com os mamilos castanhos e túmidos, tinham perdido a arrogância da juventude, mas ganho a sensualidade de terem alimentado e confortado. Com as pontas dos dedos, tocou-os suavemente e sentiu-se estremecer. Fechou os olhos, num gesto de abandono, e sentiu cada centímetro do seu corpo, vivo e palpitante. As suas mãos, numa carícia lenta e erótica, percorreram-no, como se fosse vital confirmar, que os seus sentidos estavam acordados. Acariciou o ventre, receptáculo de tantos prazeres e devaneios. Agora liso, já tinha sido um proeminente ninho, acolhedor e confortável. Sentir de novo o seu corpo, dava-lhe consciência, da sua condição de mulher. Sentia-se feminina, bela e sedutora, mas, simultaneamente, assustada, completamente perdida e insegura, numa floresta murmurante.

Tomou duche, secou o cabelo e tirou alguns pelos, que começavam a despontar, nas sobrancelhas. Maquilhou-se discretamente. Apenas realçou os olhos, com um fino contorno azul-escuro e um pouco de rímel. Para os lábios escolheu um batom rosa escuro, quase neutro. Olhou para o espelho e gostou do efeito. Estava longe de ser uma mulher exuberante, mas, quando cuidava da sua imagem, transformava-se numa pessoa muito interessante, de suave beleza, que marcava presença onde quer que fosse. Não era um belo pavão, de vistosa cauda ofuscante, mas, uma simples borboleta branca, que se destacava, no colorido berrante do ambiente.

Já bem entrada nos quarenta, Laura usava os cabelos curtos, que pintava de castanho arruivado. Do seu rosto magro, sobressaíam uns olhos castanhos, ligeiramente rasgados e particularmente expressivos. Tinham aquela misteriosa capacidade, de expressar exactamente o que se quer dizer, sem necessidade de palavras. Os lábios, bem delineados, pareciam sorrir, dando-lhe ao rosto uma serena suavidade. O seu corpo era magro e esguio. Desprovido de relevos e curvas, tão apelativos, a um segundo e terceiro olhares, era elegante e flexível. “Lembras-te como ficavas frustrada, quando compravas os soutiens? Caixa 34B…” Sorriu. Recordou a secreta inveja, que outras mulheres, com fartos seios e ancas bem torneadas, lhe tinham causado, nos remotos tempos da adolescência e juventude. Laura aprendera a gostar de si. Sentia-se feliz e em paz, no seu invólucro saudável. Entrou no quarto, vestiu-se e perfumou-se.

Olhou para o espelho uma última vez e sentiu-se bonita. Foi despedir-se do filho mais velho. Bateu com os nós dos dedos, na porta entreaberta, e entrou. Ele estava estendido na cama, com o portátil no colo.

– Tira os pés de cima da cama, ou então descalça-te! Ai, ai…

– Mãezinha… uauuu… Onde é que vais tão gira?… – Perguntou o rapaz, enquanto se sentava. Colocou o portátil no outro lado da cama e apressou-se a descalçar os ténis.

– Ah… hoje vou livrar-me de vocês! – Riu-se com gosto. – Vou jantar fora, comprar um livro e ver as novidades. E… Se me apetecer, vou ao cinema! – Concluiu, dando um beijo no rosto bonito do filho. – Porta-te bem! Não ias sair com a Rita?

– Ia… mas já não vou. Maaas… mudando de assunto… se eu não vou sair e vocês vão divertir-se… sou eu, repito, eu, que tenho que aturar o puto? – Perguntou Miguel, com um gesto teatral, puxando a mãe pela mão, de modo a sentá-la ao seu lado.

Laura perguntou-se, se o filho estaria zangado com a namorada. Ele andava tão disperso nos últimos dias. Será que alguma tristeza o afligia, ou precisaria de desabafar, ou do seu apoio, para o que quer que fosse… ”Ele tem dezoito anos… claro que se zanga. Depois reconcilia-se. E encontrará outros amores e provará desamores. Deixa o rapaz crescer!… Dá-lhe espaço.”

– Não meu anjo, o pai fica cá. – E perante o olhar inquiridor do jovem, esclareceu – O papá não lhe apetece ir às compras.

– Eu percebo mãezinha… – O jovem puxou a mãe para si e abraçou-a com ternura. Depois beijou-lhe a testa. – Vai, mãe desnaturada, abandona-nos, despreza-nos… – Brincou. – Agora a sério… mãezinha diverte-te muito e volta com o Sol!

Laura riu-se do exagero bem disposto do filho.

– És tonto filhote!

– Sabes que não sou… – Disse em tom sério, olhando-a nos olhos. Depois continuou, com a boa disposição que o caracterizava. – Mãezinha, se vires algum livro de jeito, um jogo de arrasar – para jogarmos os dois, claro – ou uma t-shirt fixe, não te acanhes, lembra-te que eu sou o teu filho favorito!… – Disse, com um grande sorriso a iluminar-lhe o rosto.

– Nem vou pensar noutra coisa, durante toda a noite, senhor Miguel! Juro! – Riu zombeteira, levantando-se.

Saiu e encostou a porta do quarto. André, o filho mais novo, via televisão com o marido e, quando a viu, foi ao seu encontro abraçando-a.

– Mãe, vais sair? Também posso ir? Vá lá… eu porto-me bem. Juro do coração!

– Hoje não meu amor! A mãe vai demorar um pouco. Vamos sair noutro dia, está bem? Ficas a fazer companhia ao paizinho e ao mano. Tens de estar atento e ver se eles se portam bem! – Laura sorriu e abraçou-o.

Ergueu-se, soprou um beijo destinado ao marido e saiu.

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36 thoughts on “Um Encontro Inesperado [Capítulo II]

  1. Pingback: Um Encontro Inesperado [Capítulo II] - Plik

  2. Olá Luisa
    Esses preparativos às vezes dão mais gozo do que a saída rsrsrs.
    A tua escrita flui muito bem, muito bem construída. A descrição é também fantástica, vive-se cada cena como se estivéssemos no papel do personagem.
    A propósito do livro que estás a ler “Histórias Rocambolescas da História de Portugal”, li-o no fim do ano passado, comprei-o para oferecer no Natal e acabei por ficar com ele. Depois do que lemos no livro e a acreditar no que lá se diz, estamos no caminho certo, iguais a nós mesmos.
    Parabéns por mais este interessante episódio
    Abs
    Emilia

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    • Emília, é verdade! 😛 Às vezes dá prazer caprichar.
      Obrigada por estares aqui. Eu aqui gostaria de ter dito mais alguma coisa, (achei que os leitores iam reter mais, a imagem exterior de Laura, do que o que ela sentia) mas se o fizesse, acabaria por invadir o capítulo seguinte. 🙂

      Olha, na realidade, eu já li esse livro há algumas semanas, e gostei imenso! Só que, não tenho tido tempo, para procurar a imagem do que estou a ler agora. Ainda bem que falaste nisso, vou tratar já disso!

      Abraços!

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  3. Grande Luisa, como disse anteriormente essa Laura iria me surpreender, acho “vero”, é uma borboleta a borboletar, ou quem sabe uma mariposa a “mariposar”??? Vamos ver nos próximos capitulos …

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  4. Uau…. Luísa, eu estou perplexo e feliz.

    O texto está cada vez ganhando mais força. E a história já deixou o papel. Não tenho dúvida que eu poderia esbarrar nesses personagens, se fosse dar um passeio em Portugal. São reais, tem suas histórias, seus dramas. E que já começamos a vislumbrar. Mais do que isso: vivenciar, já que a sua história nos puxa para dentro da trama.

    Beijos.

    E estou esperando o terceiro.

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    • Puxa, Zé, muito obrigada pelo teu comentário, tão animador! 🙂

      Só espero ter capacidade para mostrar, exactamente, o que quero mostrar. Que são os sentimentos mais íntimos das personagens. Aqueles que se manifestam, quase sem rosto, que acabam por mover atitudes contraditórias.

      Beijos!

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  5. Oilá, Lu, é envolvente a sua forma de narrar, grande diva das letras! E, o trem tá ficando interessante… Hummm, esta D. Laura vai aprontar… rs! Uma mulher fatal, vestida e perfumada, linda, saindo sozinha… ah, coitado do maridão que fica em casa… rs! Anda, Lu, nos mostre o 3° capítulo…

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  6. A semana vai demorar a passar! Vamos ver como vai ser o passeio de Laura, ela pareceu um pouco ‘acesa’ demais para quem vai dar só um passeio, além do olhar do filho e a forma séria com que falou com ela em determinado momento! Deu a impressão que sabe de algo e é conivente! Nossa, estou imaginando um monte de coisas e normalmente eu erro tudo!!!! Sabe outra coisa que eu percebi hoje, talvez tenha sido mais acentuado por ser um conto, são as expressões portuguesas, estou gostando muito de conhece-las.
    GRANDE abraço,

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    • Ademar, sabes que eu também sou assim, quando leio? Estou sempre à procura de segundas intenções nas entrelinhas! 😛 😛

      Quanto às expressões, eu também gosto muito das vossas. E já sei uma enorme quantidade delas! 🙂

      Abração e obrigada por estares a seguir este conto!

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  7. Olá minha querida amiga Luísa,

    Estás a nos entreter com esse conto magnífico, transmudando a angústia do que se espera da Laura pela ansiedade de saber o que ela fará.
    Perco o rumo do pensamento das coisas que preciso fazer para tentar descobrir o que a Laura está tramando… Oh! Curiosidade …. Perco-me na expectativa da espera….
    Desviarei a atenção……., pois a próxima quarta feira demorará a chegar….
    Beleza pura! Maravilhoso!
    Beijos em seu coração.
    Carinhoso e fraternal abraço,
    Vovó Lili

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  8. Luísa, perfeito! 😐
    Se não tivesse vivido um tempo em Portugal, diria que Laura está caçando assunto; tão bonita e disposta pra sair. Mas, posso dizer que o povo é bem independente, se arruma muito pra sair, mesmo que seja sozinha! 🙂

    Adorei os diálogos! Foi como se estivesse no quarto de Miguel, observando toda a cena.

    Parabéns, Luísa.
    Agora quero a parte III! Vamos, vamos, vamos!

    Beijão

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    • Fábio, eu penso que todos estão a pensar isso. Que a Laura foi vestida para “matar”! 😛 😛

      Ainda bem que o diálogo, apesar de leve, está compreensível! Obrigada pela força! 🙂

      Beijocas!

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  9. Olá Luísa querida!
    Delicioso o seu conto! Estou adorando participar desse desenrolar…
    Gostei muito da forma como você a descreveu olhando-se no espelho. Foi suave, sensual, mas não vulgar e dá uma característica à personagem de força, de maturidade…
    Quero conhecê-la melhor e é o que farei nas próximas leituras!
    Parabéns, minha linda! Excelente escrita!
    Grande beijo,
    Jackie

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    • Jackie, boa tarde! 🙂

      Fico feliz por teres percebido a mensagem desse parágrafo. Quis mostrar, assim uma espécie de sentimento de quem está a reaprender o corpo. A redescobrir.

      Os comentários são um “corrector” ao modo como expresso determinada ideia (às vezes só é clara na nossa cabeça). Muito obrigada pela participação!

      Beijocas!

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  10. Lú,

    O suspense esta aumentando. A mim pareceu que Laura saiu de casa com segundas intenções, mas como foi dito anteriormente que ela tem esse hábito, fico aguardando o próximo capítulo.
    bjks

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  11. Ola Luisa.
    “Cheguei” agora ao teu conto mas ainda estou muito a tempo. Fiquei ansioso por saber mais desta estória.
    Mais comentários da minha parte são desnecessários. Estou a gostar!
    Beijinho

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  12. Olá, escolhi você para receber o selo Stylish Blogger Award, peço que passe pelo meu blog, apanhe o seu selo e dê uma lida nas orientações, continue assim fazendo a diferença pelo estilo, pela forma de pensar e pela forma de se distinguir na blogosfera. Um grande abraço!

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  13. Ola querida Luisa

    Laura parece ser uma mulher felizarda,sem marido ciumento que a deixa sair á noite…rsrsrs…e tão sexy…com quem irá ela se encontrar?!…

    Lindo lindo seu texto!!!!!!!!!!!!

    Bom fim de semana

    beijos
    joana

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    • 😀 😀 😀

      Joana, eu acho que, se a Laura suspeitasse, que o marido não “a deixava” sair sozinha… já o teria feito há muito tempo! rsrsrsr

      Muito obrigada pela tua participação, Joana!

      Beijinhos e bom fim de semana! 🙂

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  14. Oi Luísa, cheguei aqui para me atualizar nas tuas postagens e me deparei com essa maravilha de narrativa. Gente, li os dois capítulos de uma vez só, fui procurar o terceiro e nada!

    Adorei o “ritual” antes do passeio. Nossa, faz um bem danado, levanta o astral da gente.

    Mas que família tranquila e que vizinhança curiosa…

    E já estou aqui a especular: um encontro inesperado? Quem vai se encontrar com quem? Quando saberemos?

    Adorei tua narrativa, flui que é uma beleza e a gente vai junto… Sigo aguardando…

    Bjs

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    • Denize,

      Menina, muito obrigada por estares aqui a ler este conto! É uma experiência e a tua opinião é de vital importância! 🙂

      Fico a aguardar as tuas criticas e sugestões! 😛

      Beijinhos!

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  15. Olá Luisa:

    A história realmente está ganhando força, mas as personagens já estão devidamente apresentados. Sua descrição detalhada da parte física e também da parte psicológica foi perfeita.

    E que a imprensa brasileira para de dizer que brasileiro não lê livros.

    Lemos os bons, como esse.

    Parabéns.

    ABS

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    • Jânio,

      Para mim é um prazer ter-te como leitor. As populações lêem pouco, mesmo. Se esta for uma forma de as aliciar, então vamos em frente! 😛

      Muito obrigada por estares aqui. A tua opinião é muito importante.

      Grande abraço!

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  16. Oi minha querida amiga…. pouco atrasadinha eu né? Mas tô levando vantagem….vou ler os capítulos II e III sem precisar ficar anciosa…..kkkkkkkkkkkkkkkk
    Você é uma escritora nata… e estou adorando a abordagem cotidiana que está dando aos personagens, nos mostrando as palavras veladas e as contradições que acabam por motivar os personagens…..
    Beijo no coração

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    • Às vezes faz-nos bem, que os nossos rituais sejam bem explorados, não é? Eu penso que, eles servem para afugentar os nossos fantasmas e dar-nos a sensação de vitória antecipada.

      Grande beijinho!

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  17. Ah, Lú, vi toda a cena! Cada pedaço da sua narrativa! Gostei da forma como ela se vestiu. Ainda mais ao sentir a roupa comungando corpo e alma.

    Vou atras de outro capítulo, porque estive ausente nesta estrada, mas não me esqueci de vc e da sua história.

    A delícia de ler assim esta em falar diretamente com a autora, e palpitar.

    Bjs querida.

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