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Um Encontro Inesperado [Capítulo VII]

Galatia of the Spheres - Salvador Dali

Prisioneira de fantasmas inventados


Laura abriu os olhos. Sentia-se confortável, aconchegada e segura, trancada no pequeno espaço do habitáculo do carro. Não soube quanto tempo estivera presa ali, imersa naquela teia de pensamentos tenebrosos. Muito mais que os dez minutos que se tinha permitido. Abriu a porta do carro e sentiu o ar quente e enjoativo do estacionamento. Assaltou-a um medo terrível ao pousar os pés no chão. Subitamente, sentiu-se perdida, desejou pôr o carro a trabalhar e sair dali. “Sempre podes ir comprar uma fatia de pizza, comê-la aqui e depois, conduzires sem destino, até à meia-noite… assim, para fazeres jus à Cinderela…” Com uma força sobre-humana, repescada não se sabe, se do coração ou das entranhas, saltou do carro, trancou-o e começou a caminhar rapidamente para o acesso ao shopping. Olhou para o relógio. Ainda era cedo, tomaria um café na Fnac e ficaria lá a ver os livros um bocado, até chegar a hora do jantar.

O estabelecimento estava apinhado de gente. Laura dirigiu-se à zona da livraria, onde o ambiente era mais calmo e entrou no espaço da cafetaria. Pediu um café. Bebeu com calma, deixando-se envolver pelas vozes, longínquas e sussurradas, dos clientes e empregados. Quando terminou, colocou o tabuleiro no depósito e dirigiu-se ao espaço destinado à leitura. Olhou distraída para as prateleiras e escolheu um livro ao acaso. Sentou-se e folheou-o, tentando afastar a angústia que se a apertava como um torno. Tinha na mão um livro de culinária. Quase riu alto. Pensou que, se tivesse de se preocupar mais com o alimento do corpo, não teria tempo para os chiliques da alma. Salada de polvo. Imaginou como os seus tentáculos moles, podiam ser fortes e insinuosos. “Comportamento de mulher patética, que queria a todo o custo recuperar um homem.” Arrepiou-se. Mas, mesmo esse bicho tão horrível, conseguia transformar-se num prato delicioso, quando cozinhado e temperado com habilidade. De seguida pensou num tamboril e fez um gesto de desagrado. Tentava afastar do pensamento aquela conversa sem nexo ou conteúdo. Costumava fazer o tamboril de caldeirada; ficava delicioso. “Caldeirada foi o teu encontro com Inês.” Nem podia dizer que se tinha dado mal, pois naquela época, tinha ficado tão chocada, tão cheia de raiva e certezas, que de algum modo, a situação a tinha ajudado a definir os seus sentimentos. Encostou-se no banco e continuou a folhear o livro, muito longe dos escalopes au Madeira ou do bavaroise de morangos.

Laura não pensou muito no conselho de Carlos. Era uma ideia fixa. Tinha de conhecer Inês e tratou desse assunto, como se a sua sobrevivência dependesse desse encontro. Ambas concordaram nada dizer a Mário e finalmente encontraram-se. Laura viu à sua frente uma mulher jovem, demasiado maquilhada e trajada, para dar nas vistas, em qualquer lugar.

Vestia uma saia de ganga, demasiado curta e justa, que deixava à vista umas pernas grossas, de coxas revestidas por uma fina camada de celulite. O rabo, já de si grande, era realçado pela pequenez da dita saia. Da cintura, pouco vincada, caía um pneu, todo visível pela curta blusa azul petróleo, que também lhe deixada à vista, parte do soutien preto, o qual lhe apertava as mamas, de modo a fazê-las parecer muito grandes. Parecia alta em cima duns saltos de quinze centímetros, mas, Laura, percebeu que era uma pessoa atarracada, pouco elegante e grosseira nos gestos mal aprendidos. O seu sorriso, escrupulosamente ensaiado, deixava mostrar uns dentes brancos, ligeiramente encavalitados, que lhe conferiam ao rosto uma beleza muito pessoal. Os cabelos castanhos-escuros eram muito compridos, démodé, mas muito bem tratados. Num trejeito mecânico pegou neles, enrolou-os e deixou-os cair em cascata sobre o seio esquerdo. Esta mulher vulgar, que tresandava a perfume caro, revelando não o saber usar, era muito diferente da outra, que tinha construído no seu imaginário. A outra Inês era bela, inteligente, elegante, fina nos gestos e no discurso, e claro, dona de um sedutor corpo de pin-up. Pensou que sempre estivera enganada. Afinal, eram mulheres como a Inês real, que povoavam o imaginário masculino. Cumprimentaram-se, entraram na cafetaria e sentaram-se. Pediram café e água, para Laura e um sumo para Inês. Laura quebrou o silêncio.

– Inês, desculpe se a coloquei nesta situação, mas sentia uma enorme necessidade de conhecer a mulher por quem o Mário está tão loucamente apaixonado. – Disse com sinceridade.

– Bem, agora que já me viu, já está mais descansada, ou nem por isso? – Perguntou sarcástica, numa voz rouca e arrastada, cruzando as pernas com ar provocante.

– Sim, já estou mais descansada, porque vejo que Mário encontrou uma mulher muito atraente e que fará tudo para o merecer. – Mentiu Laura, descaradamente, irritada com a resposta, mas sorrindo com delicadeza “Estás a ficar perita, na arte da simulação… Parabéns!”. – Eu e o meu marido estamos separados. Apenas vivemos na mesma casa. – Justificou.

– Eu sei. Ele conta-me tudo. – Disse a jovem com voz neutra. – Mas nós vamos ter a nossa própria casinha. Ele prometeu-me. E olhe que nunca me falhou!

– Mas você também não pode falhar com ele. “Aproveita agora que está de maré!” E já falhou algumas vezes, não é verdade, Inês? Sabe do que eu estou a falar, não sabe? – Perguntou, olhando-a nos olhos. Inês baixou-os colocando-se na defensiva. – Não adianta negar, você não fez questão de se esconder e tem escolhido parceiros, que sabem do seu envolvimento com Mário, mesmo que não o conheçam directamente. Ele não merece sofrer. Já deve ter percebido que ele é uma pessoa muito boa e crédula. Não o faça sofrer!

– Por acaso você é mãe do meu homem? “Ora toma, que já almoçaste!” Ele acredita em mim e sabe que eu às vezes faço coisas sem pensar, mas adoro-o. E ele adora-me, não se esqueça disso. “Vá, mete o rabinho entre as pernas e aprende qual é o teu lugar.” Ele faz tudo o que eu quero… mais cedo ou mais tarde. Estamos unidos pelo destino… – Inês suspirou, numa cena digna de qualquer telenovela mexicana. – Ele já conhece como eu sou, às vezes dá-me um vaip e passo-me com ele. Depois faço coisas, que até nem quero fazer, mas mesmo que ele venha a saber, vai perdoar-me. Não se esqueça que ele adora-me muito e sou eu que o fodo, percebe? “Percebo melhor do que imaginas, puta de merda!” Eu sou o grande amor da vida dele. – Disse com orgulho – Se você lhe contar alguma coisa, ele vai pensar que isso é só inveja e que inventou tudo.

– Isso é da vossa conta. Não tenho intenção de lhe contar seja o que for. São vocês que têm que resolver os vossos assuntos. – Sossegou-a, Laura.

– Por aquilo que Mário me conta, pensei que você fosse mais velha e feia. – Disse a rapariga melíflua, como estivesse a consolá-la – Ele está sempre a dizer que você já deu o que tinha a dar, mas vejo que ainda está aqui para as curvas!

– Obrigada pela simpatia, Inês. – Disse, não lhe ocorrendo mais nada, perante tão brejeira afirmação.

– Como sabe, você não tem qualquer importância para ele. ”Já estavas avisada… agora arranja traquejo para a gaja. Desenrasca-te!” Ele só está lá em casa por causa dos filhos, sabia? Até nos rimos, porque ele costuma dizer que assim não tem que pagar a uma mulher-a-dias! Não se ofenda, é só nas brincas. – Disse a rapariga rindo. Laura sentiu que todo o seu sangue lhe fugiu do corpo escondendo-se num lugar inacessível. “Não vais morrer agora, pois não?” Mas, num rasgo de vida tirada sabe-se lá de onde, continuou.

– É Inês, ele ama-a muito e quer conservá-la. Você também tem que fazer a sua parte. Ele precisa de ajuda para deixar de beber. Pensei que pudesse ajudá-lo nisso. – Tentou apelar aos seus sentimentos. – Se ele deixar de beber é bom para todos, mas principalmente para ele e para si. Ele pode continuar a trabalhar e assim vocês podem construir a vossa vida em comum.

Inês ficou pensativa por momentos. Devagar, como se estivesse a falar consigo própria, disse:

– Eu vou ajudar, mas à minha maneira. – Os seus pensamentos voavam a uma velocidade alucinante. Se isso por um lado era bom, por outro ele passaria a dar-lhe menos dinheiro. E quando bebia demais, para além de lhe dar sempre cinquenta euros para o “táxi”, ainda lhe dava quase sempre mais oitenta ou cem. Era um bêbado super generoso. Verdade que ela também sabia insinuar sem pedir. Ele, quando estava muito bêbado, dava-lhe tudo. Depois, ela garantia-lhe, com lágrimas na voz, que só recebia aquele dinheiro porque precisava muito. Como ele adorava ouvi-la dizer isso e confortá-la. Sim, ele confiava nela e estava cada vez mais preso. – Sim, claro que ajudo o meu man, mas à minha maneira.

– Faça como achar melhor, Inês. Qualquer colaboração é bem vinda, porque o Mário está a perder o senso da realidade. Está a prejudicar-se muito no trabalho e com certeza você também poderá sair prejudicada com isso.

– Você tem muito pouco orgulho, não tem? – Perguntou bruscamente. – “Querias conhecê-la, não é? Então agora arca com as suas verdades básicas e grossas.” Vem pedir-me coisas para um homem que nem gosta de si. Que não tem qualquer tesão por si e dá-lhe desprezo. Não tem vergonha disso?

– Não… – respondeu lutando contra a falta de ar que subitamente a assaltou. – Ele é o pai dos meus filhos e amei-o muito, apesar de já não termos nada um com o outro. O facto de eu o enjoar e ele me desprezar não alteram o passado, nem a sua doença presente. E nós temos dois filhos para criar, não se esqueça disso Inês. – Frisou. – Interessa-me muito que o meu marido se cure e deixe de beber, garanto-lhe que ele não me interessa para mais nada. Mas nós temos um filho que vai entrar na faculdade e outro com apenas oito anos. Ambos queremos dar-lhes a melhor formação possível. Por tudo isso, eu não tenho qualquer vergonha em lhe pedir ajuda. “Preciso sair daqui antes que me vomite toda.” Agora tenho que ir. Espero que se empenhe em ajudar o Mário e agradeço-lhe muito ter-se encontrado comigo. – Laura levantou-se e estendeu a mão à rapariga. Ela tocou-lhe a mão ao de leve quase contrariada. Sem se levantar, pegou no copo de sumo, bebeu um trago e ficou a olhar para a mulher enquanto ela se afastava. Pensou que não tinha gostado nada da última parte da conversa. Os seus olhos tornaram-se negros e fechados.

Laura odiou-se por aquele encontro. Nunca se perdoaria. Grossas lágrimas de impotência rolaram pelas suas faces. Devia ter dado ouvidos a Carlos e não ter feito tal disparate. Mas fizera-o e agora só podia seguir em frente carregando mais este fardo. Mário e Inês amavam-se e isso era um facto. Ele estava deslumbrado por Inês e pouco lhe importavam os valores morais e as convenções sociais burguesas, onde costumava mover-se. Até porque os padrões sociais não se alinham pelo mesmo diapasão das paixões.

“Quem ama ouve a mesma música e isso é suficiente.” Riu-se com amargura e pensou que, tinha sido uma perda de tempo e energia, ter-se armado em cavaleira andante, a tentar derrubar moinhos de vento, para salvar o marido, dum desgosto que ele nunca iria sentir. Pensou que eles estavam certos. Pensou que era uma estúpida moralista, daquelas mesmo rascas, que batem à porta das pessoas aos sábados de manhã, para tentar catequizar as famílias dormentes de sono.

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13 thoughts on “Um Encontro Inesperado [Capítulo VII]

  1. Querida amiga irei usar como meu livro de criado mudo, pois uma boa leitura nos ajuda a ter um sono maravilhoso, um exelente fim de semana abraços no coração.

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  3. Noooossssa! eu sabia que tal encontro ia pegar fogo! O encontro das “leoas”, foi visualizado tão bem por mim, como se eu estivesse alí presente, sentado à mesa ao lado. Que emoção… A Laura é uma dama completa; uma mulher dona de si, sabedora de suas obrigações,deveres e direitos; a Inês, também, mas,coitada, é ela mesmo sem querer, uma puta descarada… Que pessoinha! Ahhhhgora, penso eu, que o esforço da Laura em resgatar valores, não foi em vão.Acredito que ela tenha deixado algo no coração da “criatura perdida”, a quase que total, para assuntos familiares, a insensível Inês…

    Lu, que delícia! Fiquei querendo ler mais. 1 beijo pra vc!

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  4. Oi minha Flor….é sempre difícil um encontro entre mulheres com tantas diferenças….
    A Inês não ama, precisa, usa! A Laura deixou de amar, embora ainda não conviva bem com isto, e numa tentativa de se convencer acaba por se sentir ainda pior!
    A Laura sabe que esta Inês não vai ajudar seu marido, e que a desculpa que precisava para partir em paz não vingou….
    Minha pergunta é: E agora, que ela percebe que Inês não ajudará seu marido, vai ter coragem de deixá-lo se levantar sozinho e seguir na reconstrução de sua própria vida? Ou vai continuar se sentindo a salvadora, a mulher boazinha que tem que se anular?
    Beijo no coração

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  5. Lu,
    As esposas são sempre mais contidas e elegantes do que as amantes. A condição de amante, mesmo que a dita se sinta o máximo, é insegura. Gostei do diálogo, a superioridade de Laura já era prevista. Fico aguardando o próximo passo dessa esposa que, no meu entender, ainda sente amor pelo marido, mesmo que ela não saiba.
    bjks

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  6. OLa Luisa
    Tenho estado ausente…mas sempre que posso vou ao seu cantinho espreitar seu misterioso romance.

    Será que algum dia estas duas vão ser amigas? Olha que tem acontecido na vida real…

    beom fim de semana querida amiga

    beijos

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  7. Menina, comecei de trás para frente, porém pude sentir nesta narrativa uma vibração muito forte e suas personagens são muito marcantes.
    Gosto de como escreve… sua forma de contar é sempre rica em detalhes…
    Abraços

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  8. Bem, digamos que o encontro foi politicamente correto, entretanto a realidade nem sempre é assim que ocorre …. mas, nada do que fugir da realidade ….

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  9. é… tem encontros que não deveríamos insistir em tê-los. Mas, se não os tivermos, como saberemos?

    Tem jeito, não. A Laura carrega sua cruz com toda a dignidade possível.

    E você continua conduzindo a trama com maestria. Parabéns!

    Beijos

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  10. Saudações
    Amiga Luísa:
    Excelente Crônica. É cada um carregando a sua cruz e as interrogações da vida fazendo companhia aos encontros e desencontros.
    Parabenizo-a pelo magnífico texto!
    Contagiou. Mexeu. Valeu.
    Parabéns por mais um lindo Post!
    Abraços fraternos,
    LISON COSTA.

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  11. Oi Luísa, minha querida!
    Estou atrasadinha, amiga, mas hoje tive tempo para vir aqui ler mais um capítulo dessa fascinante história!
    Olha, não sei se eu teria o sangue frio da Laura…rsrs…Imagine! Ouvir tudo o que ouviu!!! Mas, pelo menos ela manteve a classe e sai superior!
    Eu não perderia o meu tempo, com certeza, mas era uma curiosidade que ela tinha e pôde satisfazer… Acho que ainda teremos reviravoltas em tudo isso!
    Vou aguardar! rsrs
    Grande beijo e parabéns por mais esse capítulo muito bem escrito!
    Jackie

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