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O Capuchinho Vermelho e o Hospital

O Capuchinho Vermelho

– Hoje vou até ao Hospital novo, sempre quero ver se as estradas já estão a “andar”. – Disse eu enquanto vestia umas calças de algodão e calçava os ténis.

– É melhor deixares essa caminhada para o fim de semana… vem aí uma carga d’água!… – Argumentou o meu amor, olhando para o céu, como um marinheiro experiente.

– Emprestas-me o teu blusão impermeável? – Perguntei.

– Há anos que andas para comprar um para ti… claro, nem precisas perguntar. – Respondeu. – Afinal ele já é mais teu do que meu, isto se considerarmos que eu o vesti duas vezes e tu, pelo menos, pelo menos, aí umas cinquenta e duas… – Disse, sem nenhuma entonação especial na voz, mas eu bem o percebi!… Mas não liguei.

Então, lá vesti o enorme (na largura e no comprimento) blusão, uma peça azul escura, leve e fina, totalmente impermeável, sem botões (veste-se como uma t’shirt) e com um grande capuz. Assim equipada, enfrentaria qualquer tempestade que me surgisse pela frente, nos quatro quilómetros de marcha que me esperavam.

Ainda não tinha andado quinhentos metros, quando ouvi uma espécie de passinhos miudinhos, musicados por uns sapatos ou botas de salto fino. Pensei para mim, que uns sapatos de salto alto, não eram calçado adequado para andar a pé longas distâncias, muito menos a chover. Devia ter atrás de mim alguma maluqinha d’Arroios. Logo a seguir passou-me pelo cérebro uma pergunta pertinente, “o que é que tu tens a ver com isso? Maluquinha porquê?… Nem sabes o quê ou quem é que vem atrás de ti. Ora anda, e mete-te na tua vidinha!” Depois respondi a mim própria, “Apoiado. Se queres julgar absurdos, julga mas é o caso do impermeável, que andas para comprar há anos e ainda não compraste”.

– Bom dia, por acaso não viu por aí o lobo mau, não? – Perguntou uma voz fina e doce, sincronizada com o som dos passinhos miudinhos, agora ainda mais rápidos e sonantes.

Olhei para o meu lado direito e não contive um “Ah…” de espanto. Caminhava lado a lado com uma linda menina, que parecia mesmo o Capuchinho Vermelho. Sim, sim, o da história! Só que esta menina era mais crescidinha (uma muito jovem mulher) e usava uns bonitos e desconfortáveis sapatos de salto alto. O cesto de verga, pendurado no seu braço esquerdo, tinha lá dentro um saco de papel, pintado de pingos de chuva, e um molho de flores de plástico. “Mas que raio…”, passou-me pela cabeça, mas logo me abstive de continuar este pensamento especulativo e resolvi averiguar.

– Bom dia! Na verdade não vi lobo nenhum, nem mau nem bom!… – Disse com pena. – Mas, diga-me, o que faz por aqui um Capuchinho Vermelho tão elegante e encharcado? – Perguntei.

O Novo Hospital

– Ah, sabe lá, é uma longa história… – Começou hesitante.

– Conte, conte… ainda temos três quilómetros e meio de tempo… – Incentivei.

– Olhe, eu quero ser atriz, é o meu sonho desde pequenina, então aproveitei uma oferta de trabalho, para protagonizar o Capuchinho Vermelho Assombrador das Estradas de Acesso ao Novo Hospital de Loures. Bem, não é um filme, claro, é apenas um pequeno teatro. Dum lado está a empresa Armando Cunha, SA a dizer que não tem graveto para fazer as estradas de acesso ao Hospital – que está prontinho, como se vê ali à frente; isto, enquanto a CML não lhe pagar os 800 mil das faturas já vencidas. Por outro lado, a CGD parece que não se descose com o empréstimo acordado com a CML; deste modo, a Câmara não tem dinheiro para pagar as faturas…

– Uma pescadinha de rabo na boca… – Murmurei.

– E foi assim que eu fui contratada para assombrar o local. Já não tinham mais argumentos, nem argumentistas e a história da crise está muito desgastada… sabe? Nunca pensei é que o palco tivesse mais de dois quilómetros quadrados, o que torna o trabalho muito cansativo e, às vezes, muito desanimador. Para me dificultar a atuação, ainda tenho que fugir do lobo mau, e, nunca sei donde é que ele pode surgir. Até desconfio que ele faz batota e está por aí num canto qualquer a descansar, abrigado da chuva, enquanto eu ando aqui, nesta futura-possível-estrada, onde não passa viv’alma, de um lado para o outro, de um lado para o outro… até ele aparecer…

– Até ele aparecer… e depois? – Perguntei eu, curiosa.

– Depois é mais ou menos como na história. Ele usa o seu charme de lobo, convence-me que a estrada não serve para nada, e, que podemos muito bem ir para o hospital a corta-mato! – Respondeu-me o Capuchinho, com um sorriso triste nos lábios vermelhos.

– Estou a ver… estou a ver. Bom, ainda bem que eu já ando a treinar!… Só espero não precisar vir ao hospital, por ter uma perna partida… – Suspirei arrepiada, com uma cena que passou, como um filme, à frente dos meus olhos: dezenas de velhinhos, mães com crianças ao colo, pessoas com braços pendentes e pernas a arrastarem-se, todas naquele corta-mato infernal até ao hospital. De repente, uma grávida, exausta, não se aguentou e teve o seu bebé ali mesmo, naquela terra molhada e fria. Brrrr…espírito macabro, o meu! Afastei os maus pensamentos e disse para o Capuchinho Vermelho:

– Desejo-lhe boa sorte na sua futura carreira de estrela de cinema, Capuchinho; eu vou voltar e acabar a minha caminhada, ou melhor, o meu treino. – Despedi-me e continuei.

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10 thoughts on “O Capuchinho Vermelho e o Hospital

  1. A história do seu novo hospital não é muito diferente das histórias de qualquer benfeitoria necessária ao povo feita no Brasil. De vez em quando uma empaca, mas por questões políticas, e o que é pior, também pela corrupção. Em que mundinho vivemos, hein?…

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  2. rsrsrs Olha que já se apropriam da sua ideia, Luisa! Esse pessoal vigia tudo de perto. Nada lhes escapa. E, além de contratarem centenas de personagens para convencimento geral, ainda não vão lhe pagar royalts pela acessória. Ou vão pagar-lhe com títulos da dívida pública, resgatáveis dois dias após o fim do mundo.

    Beijos

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  3. Luisa, nossa… (E foi assim que eu fui contratada para assombrar o local), fez-me lembrar quando eu e um grupinho da pesada resolveu assombrar a area!!!!! Numa estrada escura colocamos um lençol e um vela… pronto, os poucos carros que passavam os passageiros faziam o sinal da cruz. E outra, num velho hotel de São Lourenço, nós, bando de marmanjos, ficamos “de castigo” depois de apavorar um rapaz…. puxa… merecíamos Oscar de efeitos especiais! Fizemos lençõis correrem pelo ar, deslizando em fios de nylon, barulhos esquisitos… kkkk… improvisações acusticas…, no dia seguinte, o hotel inteiro olhava torto para a gente. É melhor parar por aqui….
    Beijos

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  4. De certo é que o Lobo há uma altura destas devia estar “mascando” serviço em outro canto. Enquanto isto, a Chapeuzinho fica de bu, bu! Mas mudaram os personagens para que a fita vire um longa. De barriga em barriga!

    Beijos.

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  5. Olá querida 🙂

    Desculpe -me o atraso em visitá-la, mas passei por alguns momentos complicados, mas estou voltando aos pouquinhos para ver os amigos e papear um pouco 🙂
    Perfeito este retrato que de forma lúdica nos colocou mas que retrata muito bem a nossa realidade diante destas situações, existem muitas assombrações destas por aí, lobos maus e nós no meio da confusão só passando aperto !!

    Um beijo e que seu fim de semana seja de luz e alegrias 🙂

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  6. Hahaha aposto que esse lobo andou por aqui, por várias estradas inclusive, e pôs todo mundo a caminhar no corta mato, Ah! lobo mau mauzinho.

    E a chapeuzinho vermelho coitada, a sonhar com um futuro melhor do que este de andar pela estra a fora bem sozinha, levando esses doces para a vovozinha. Torço para que ela consiga virar atriz e que não seja no submundo da sétima arte.

    E que o caçador cace o lobo mau para que as estradas possam ser feitas, aqui e aí.

    Adorei Luisa!

    Um beijo!

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  7. Oi Lu!
    Ai como aqui, as assombrações estão nos congressos. São eles, os políticos, que nos assombram como suas mentiras, corrupções e nas eleições eles nos procuram e dizem: ” Voto ou travessuras!”, e seja lá o que for, você só ganha deles as travessuras.

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