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Uma Boa Morte

Campo Verde

– Chegou a hora Babi. – Murmurou carinhosamente ao ouvido da irmã.

Ela estremeceu, beijou-o no rosto e desfez o abraço que os unia, olhando para os envelopes que ele segurava. Agitada pegou num pequeno copo de plástico e com um passo alcançou a máquina do café.

– Sim, acho que sim… Queres um café? – Mas ele já não a ouvia, atento à tagarelice das colegas, que disputavam a sua atenção.

A porta da sala abriu-se para dar passagem a um homem alto de aspecto jovial.

– Boa tarde! Olá-lá… olhem quem está aqui!… Minhas senhoras, não se deixem enrolar pela conversa fiada dele! – Depois, rindo, abraçou vigorosamente o outro homem. – Estás com bom aspecto rapaz.

Helena acabou o seu café, despediu-se do irmão com um “até logo” acompanhado dum beijo voador e saiu da sala, como quem sai do palco para os bastidores: aliviada pela ausência do público, mas angustiada e insegura com a qualidade da interpretação. Fez o seu trabalho como sempre fazia. Visitou os doentes da sua ala, tomou nota das queixas e de seguida deu as instruções que achou convenientes. No balneário despiu a bata, dobrou-a com mais cuidado do que habitualmente e colocou-a no cacifo. Trocou as socas brancas por umas botas de cano alto e vestiu o casaco. Percorreu o enorme corredor e decidiu não usar o elevador. Desceu as escadas que a levaram ao estacionamento, ligou o carro e conduziu até um bairro da periferia.

Estacionou em frente a um prédio. Sem hesitar introduziu um código no painel, a porta abriu-se e Helena atravessou o hall com passos largos, entrando no elevador. Este parou no sétimo andar. Escolheu uma porta, retirou da mala a chave e abriu-a. Olhando através da janela, em pé, estava o seu irmão. Virou-se sem pressa e estendeu-lhe os braços. Helena aconchegou-se no abraço, sentindo o tremor das mãos dele nas suas costas. Fechou os olhos.

– Podemos fazer isto mais tarde…

– Agora, mana… por favor.

O homem dirigiu-se para o quarto, descalçou-se e estendeu-se na cama vestido. Puxou a manga da camisola até meio do braço e sorriu para Helena. Ela inclinou-se e beijou o irmão na testa. Calçou umas luvas, libertou a seringa do invólucro esterilizado que a protegia e encheu-a com um líquido branco e viscoso, retirado dum frasquinho. Concentrou-se no rosto do irmão que continuava a sorrir incentivando-a. Helena escolheu uma veia e as mãos tremiam-lhe quando a agulha penetrou na pele. Tinha que ser rápida ou não conseguiria… retirou as luvas e pegou na mão do irmão. Estava feito. Tudo terminado.

– Quero ver o teu sorriso, Babi… – disse o homem enquanto lhe apertava a mão gelada.

Helena sorriu-lhe e continuou a sorrir muito tempo, mesmo quando ele já não a podia ver. Uma boa morte. O seu irmãozinho tinha tido uma boa morte. Grossas lágrimas rolaram pela sua face. Lentamente descalçou as botas, estendeu-se ao lado do irmão, abraçou o corpo inerte e chorou o seu morto convulsivamente.
…….

– Andava à tua procura. Queria que visses a doente do quarto… – calou-se, olhando a colega e amiga, de tantos anos, nos olhos – estiveste a chorar… Helena, se é por causa dos exames do Rui…

– O Rui morreu, Álvaro, eu…

– Ah minha querida, minha amiga… ele pediu-te!… – calou-se e pegou nas mãos de Helena. – Sei que isso não vai diminuir a tua dor, mas eu teria feito o mesmo, por um familiar, por um amigo, por ti… ele ia começar a sofrer muito, Helena. Ia perder a alegria, a dignidade e fez a sua escolha.

– Não foi capaz de o fazer sozinho… as mãos já não lhe obedeciam e a visão já o traía.

– Daqui a uma semana começaria a perder o equilíbrio, dentro de um mês estaria amarrado a uma cama cheio de tubos e dependente duma arrastadeira. Vai ser bom recordá-lo generoso, alegre e cabeça de vento, sempre atrás de um rabo de saias. Vai para casa Helena, não tarda muito serás chamada a uma tarefa difícil… e a tua mãe vai precisar de apoio.

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23 thoughts on “Uma Boa Morte

  1. Tema delicado, Lú. Mesmo sabendo das circunstâncias que o irmão dela poderia passar, não teria coragem de fazer isso. Além do mais, se ele quisesse se matar, que fizesse sozinho, dar a outra pessoa a culpa por tê-lo “matado” é muito egoísmo.

    Enfim, uma boa reflexão, apesar de não concordar!😉
    Beijão, minha querida!

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    • Este é um tema muito melindroso, Fábio. Ele mexe com valores muito delicados, quantas vezes distorcidos e cegos pela nossa própria dor.

      Claro que esta é uma história extrema, mas se a eutanásia fosse uma prática legal, o rapaz não precisava de envolver directamente a irmã. Penso que é um acto de amor e piedade para com alguém que amamos, não o deixar agonizar, infeliz e num enorme tormento, durante semanas, meses, até que finalmente o seu corpo deixe de funcionar totalmente. Também penso que essa deve ser uma decisão pessoal.

      Beijos, querido, e Boas Festas aí nesse Brasil quentinho. Por cá gelamos, com aquele vento “fininho” que nos chega aos ossos!🙂

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  2. Oi Luisa, o assunto é melindroso, não é muito fácil emitir uma opinião, somente pela razão sem levar em consideração o coração. A eustanásia é um ato extremo, que retira do doente, seja qual for a sua situação, a oportunidade da cura. Não é desconhecido de ninguém, prognósticos totalmente negativos não se confirmarem e a doença ou não se desenvolver como deveria, ou até não se manifestar. Levando em consideração, o que eu acredito, eu nunca cometeria uma loucura assim, pois as minhas convicções dizem que cada um é obrigado a passar pelo que lhe está reservado e a mim não caberia este julgamento e nem mesmo a responsabilidade do ato.
    Ficam perguntas: Seria a eutanásia um ato de amor, no qual alguém abrevia o sofrimento de um ser amado? Seria ela covardia de ambos, onde um não quer ver o sofrimento e o outro não quer sofrer? Seria egoismo, onde quem sofre, por sua covardia, dá a outro responsabilidades pela decisão e pelo ato?
    BJOS
    Lena

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    • Olá Lena!🙂
      Eu percebo a tua posição em relação à eutanásia e respeito a opinião de todas as pessoas, pois, como dizes, este assunto é muito delicado e polémico.
      Dependendo das situações, considero que é um acto de amor, sim. Mas eu não me rejo por dogmas religiosos ou filosófico-religiosos, conto apenas com a minha consciência, por isso tento não julgar as decisões dos outros, desde que elas não intervenham com o bem estar social. Esta, tal como o aborto, é uma decisão pessoal, que não prejudica ninguém, por isso deveria ser legalizada, pois assim poderia ser praticada em segurança. E nós sabemos, tal como o aborto era praticado ilegalmente, enchendo os bolsos de médicos pseudo moralistas, a eutanásia também é, continuando a encher os bolsos dos falsos moralistas.
      Grande beijinho e obrigada por estares aqui!

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  3. Lu,
    É mesmo um tema muito delicado. Sou absolutamente contra qualquer forma de abreviação da vida, mesmo estando a pessoa em sofrimento profundo. Acredito que iremos exatamente para o mesmo lugar de onde viemos (espacial, espiritual ou outro nome qualquer), e penso que isso se deva dar no tempo certo, nem antes, nem depois. Bjks

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  4. Luísa, como sabes eu tenho um interesse especial pelo assunto. A tua coragem de apresentá-lo soma-se a daqueles que reclamam pelo direito humano de se abreviar o próprio e desnecessário sofrimento ou a quem o desejar. Quem somos nós para julgar as necessidades de um enfermo. A piedade para com os animais é permitida, para com o semelhante não. Custa-me entender.

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    • Ivani, muito obrigado por teres colocado este assunto à discussão. Foi o teu artigo que me “inspirou” este conto!🙂

      Bem, parece-me, grosso modo, que as pessoas não conseguem libertar-se dos tabus impostos pela sociedade, religiões e filosofias de vida. Então, acabam por acreditar verdadeiramente que deixar um ente querido sofrer horrores, viver uma vida (por muito curta que seja) degradante é a opção correta. Elas não entendem isso como falta de piedade, mas sim como a ação que é correcta fazer, independentemente do sofrimento do outro. O que sofre, seja qual for o seu desejo, deixa de ter o direito de escolher, tão simplesmente porque a sociedade não lho dá. A mim parece-me uma imensa crueldade.

      Beijos!

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  5. Luisa, esse assunto é por demais complexo e nenhum comentário aqui fechara o tema. Minha mãe passou seus últimos anos completamente dependente até para sua higiene pessoal e, embora algumas vezes tenha reclamado que tinha passado da hora de ir embora, ela nunca pediu a morte, e quando a mesma chegou, deixou um vazio em nós, seus filhos, que demorará a ser preenchido, isso se um dia for. Meu irmão ficou dois meses numa UTI, agora recente, e também disse que chegou a desejar a morte, e hoje ele está em casa se recuperando. Sinceramente, eu não tenho uma opinião fechada para esse assunto, eu só seu que a morte não permite arrependimentos

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    • Manoel, a perda de um ente querido deixa sempre um vazio enorme. Quer a sua vida termine por morte natural, artificial, ou num brutal acidente. Não são as circunstâncias da morte que determinam a dor.

      A questão aqui é saber se é legitimo negarmos a morte a um doente terminal, que deseje abreviar o sofrimento. Ele já tem a morte certa a prazo mais ou menos definido. O caso que relatas, parece-me não se enquadrar aqui, pois a doença do teu irmão tinha cura, embora difícil. Felizmente que assim foi, meu amigo!

      Grande abraço e obrigada pela tua opinião.

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  6. Isso me deu um nó na garganta, mas eu não gostaria de sofrer. E acho que as pessoas deveriam ter a opção de escolher se querem agonizar dores até a morte certa, ou abreviar. Fazemos isso com animais, não é mesmo?!
    Sei que precisa de coragem, mas o amor tambem é coragem.

    Beijos

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