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Acerca da Desmotivação dos Alunos

Esta carta foi-me enviada por e-mail. Foi escrita por um professor, com certeza, revoltado e desencantado com o sistema, que não lhe dá espaço para exercer condignamente a profissão que escolheu. Eu não conheço o autor nem sou professora, mas, convivendo de perto com alguns profissionais do ensino, sinto-me no dever de a publicar, pois entendo que os professores estão atolados de exigências e responsabilidades, geradas pelos sucessivos governos, que os deixa com pouco tempo para fazer aquilo que realmente é o seu dever: ensinar os nossos filhos.

Ele fala, sobretudo, da desmotivação dos alunos, ligando-a às novas tarefas exigidas pelo ME e a valores sociais mais ou menos desarticulados, o que eu concordo plenamente.

Desmotivação

Acerca da desmotivação dos alunos

De uma vez por todas se caia na realidade e se deixe de pedir aos professores aquilo que não lhes compete. Estratégias para isto, estratégias para aquilo; lidar com a indisciplina, lidar com a desmotivação. Aos professores não se deve pedir que arranjem estratégias para resolver esses problemas, pois isso é admitir que eles são situações normais, correntes e com tendência a perpetuar-se. Simplesmente não se pode admitir que eles existam como norma.

A escola pública oferece um ensino gratuito (gratuito!, à exceção da aquisição do material escolar), onde os alunos podem usufruir de refeições a um preço pouco mais do que simbólico, em regra com bons e ótimos equipamentos e professores. Os alunos mais carenciados têm comparticipação parcial ou total na aquisição dos seus materiais, nas refeições e nos transportes. De um modo geral, os programas são adequados às faixas etárias e ao tipo de sociedade que é o nosso. Estas condições por si só não são mais do que satisfatórias para que os alunos e as suas famílias se sintam naturalmente motivados? De que raio de motivação extra precisam os alunos?

Em África, na Ásia e na América Latina há centenas de milhões de crianças e jovens que frequentam escolas (os que têm essa sorte) em condições miseráveis. E aí muitos deles estão bem mais motivados do que os nossos. Serão os seus professores melhores do que nós? Possuirão eles as tais estratégias mágicas que nós, tecnologicamente apetrechados, não conseguimos vislumbrar?

É mais do que evidente que a motivação é uma treta quando colocada nas mãos dos professores, mas uma realidade quando olhamos para os sítios onde reside a sua génese: na sociedade em geral, nas famílias, em quem nos governa e na legislação obtusa que se produz. Por isso, os professores não têm que motivar quando não há motivos de origem pedagógica para o tipo de desmotivação com que deparam.

A mesma reflexão deve ser feita em relação à indisciplina, que também não é um problema que o professor tenha que resolver. A indisciplina é uma questão que, simplesmente e em circunstâncias normais, não deveria existir! Em circunstâncias normais, para resolver problemas pontuais de indisciplina o professor deveria precisar apenas de uma palavra: “Rua!”

Se houver comportamentos desadequados nas salas de espera e nos gabinetes médicos dos hospitais serão os médicos a resolvê-las? Se a mesma coisa acontecer numa repartição de finanças são os funcionários que vão resolver? Num restaurante, num meio de transporte, numa sala de espetáculos…?

Ora, o professor não tem que motivar nem disciplinar, tem apenas que ensinar, que é aquilo que se lhe pede cada vez menos. Nessas matérias peçam-se, pois, responsabilidades a quem realmente as tem, senão daqui a 50 anos quem cá estiver estará ainda a falar do mesmo.

António Galrinho

Professor

12 thoughts on “Acerca da Desmotivação dos Alunos

  1. E qual o professor que, hoje em dia, não se sente assim? Revoltado, desmotivado, desassossegado… Professor – indivíduo que professa ou ensina. É o significado que surge no dicionário de Língua Portuguesa e que, cada vez mais, perde o verdadeiro sentido da palavra. Eu, felizmente, tive a sorte de escolher e exercer a minha profissão de sonho. E cá continuo a tentar ensinar aos meus alunos tudo o que aprendi ao longo da vida, da melhor forma que consigo, com o pouco tempo que me deixam para tal. Educá-los? Sim, também, sempre o fizemos, em consonância com a educação dada pelos verdadeiros responsáveis, os pais. Não da forma como o fazemos hoje em dia, com total (ou quase) responsabilidade, porque simplesmente os pais delegam na escola e professores tudo e mais alguma coisa. Culpa dos pais? “Nim”. Muitos não querem saber, desde que o seu filho esteja fora de casa e em segurança. Até pode ficar na escola até às 20h que não há problema nenhum. Já há associações de pais que propõem dar-se o jantar aos meninos nas escolas. Porque não? Felizmente, há outros que entendem que a verdadeira função da escola e dos professores não é a de “babysitter” e tudo fazem, dentro do possível, por acompanhar e ajudar os seus educandos (e muitas das vezes, os seus professores) neste processo educativo. Enfim, tanto que se poderia dizer, contestar… A incompetência dos nossos governantes vai repercutir-se numa geração de adultos desmotivados e ignorantes. Culpa nossa? Não. Com menos ou com mais seja do que for, os professores continuam a fazer o seu trabalho. Revoltados, desmotivados, desassossegados? Sim. Com tudo o que foi dito e omisso, como hão-de os nossos alunos sentir-se motivados seja para o que for? Obrigada, Luisa, pela partilha e solidariedade. Beijinho.

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  2. Bem, uma coisa é certa, a educação, tanto lá como cá, alterou os critérios de passar as informações, e nesta contra-cultura se perdeu muito, e hoje nem alunos e professores estão bastante motivados . e o que sobra é uma juventude sem rumo …..

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  3. Muito bom Luísa! Concordo com quase tudo.
    Apenas considero que o professor deve também motivar. Aliás, a arte de bem ensinar será, só por si, motivadora. Quando ouvimos um professor falar com paixão é mais fácil sentirmos motivação. Penso que uma das grandes questões actuais, é que os professores (e não só), estão mais preocupados com o seu futuro e com o que poderá acontecer, do que com as aulas em si. Resumindo, lamento que estejam a desviar as atenções dos professores daquilo que deveria ser o centro da sua atenção, embora também me pareça que tenha existido alguma irresponsabilidade na época em que muitos queriam ser professores (há uns anos atrás), sendo que muitos o queriam por razões que não estão ligadas com a nobreza do ensino. Muitos não estavam centrados na sua missão, por outras razões, por actividades paralelas. Mas esta é uma matéria melindrosa e que ainda vai fazer correr muita água.
    Apenas desejo que 2012 seja bom para todos.

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  4. Querida amiga, minha esposa também trabalha em uma creche, e aos finais de semana leciona em uma escola dominical.
    E as reclamações são as mesmas, como motivar os alunos e a sí mesmo.
    Pois é, mudam os continentes mas os problemas são o mesmo.

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  5. Querida Luísa:

    Você esteve entre os meus “blogs recomendados” o ano inteiro. Não vai ser agora que vamos nos separar.

    2011 está no fim, e 2012 está chegando, carregado de sonhos. Só precisamos torná-los realidades. Vamos tentar?

    Muita saúde e paz!!!

    Um grande abraço…

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    • Olá Carlos! 🙂

      Feliz Ano Novo para ti também!
      O Dando Pitacos também está sempre comigo (ali à direita), apesar de nem sempre poder ir até lá fazer uma visitinha…

      Grande abraço, meu amigo, muita saúde e paz!

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  6. A cerca do texto do teu amigo, vamos esperar que os fatos melhorem e as famílias retomem suas obrigações como educadores dos filhos e não fiquem jogando tudo para cima do professor. As famílias têm que educar e os professores que passar o conhecimento. Assim tudo funciona.

    Um lindo 2012! Torcendo daqui para que toda a Europa se restabeleça financeiramente para que você possa comprar muitas coisinhas novas. Além da prosperidade, desejo muita saúde e paz. Beijinhos doces no coração.

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  7. Luísa, Olá!

    O texto retrata tudo o que vemos diariamente nas escolas, mas que por força de estatutos e leis forçam o endeusamento dos alunos. Sim, são tratados como pequenos deuses, lançados numa letargia,numa falta de compromisso, numa irresponsabilidade a toda prova. Sob a proteção dos “pedantegogos” e das “pedantegogias” que dirigem a educação, saem cada vez mais defasados na aprendizagem.
    Ah! mas temos um culpado para tudo isso: o PROFESSOR.
    É impressionante ! Em nenhuma palestra, nenhum curso, nenhuma reunião pe- dagógica etc é mencionada a necessidade de o aluno adaptar-se à escola.
    O professor precisa sempre mudar, rever suas metodologias, rever seus conceitos, rever sua postura, ser compreensivo, ser mediador…
    E o aluno? Venha a nós, ao vosso reino, nada!

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  8. Pingback: Ver! | Blog | Acerca da Desmotivação dos Alunos

  9. Cara Luisa,

    A ignorância humana é que produz tanta anomalia. O pior é que travestem tanta imbecilidade com jeito de produção intelectual, de grandes descobertas. A esperança é que um dia os imbecis percebam, na marra, quando for mais palpável que o óbvio ululante que muito do que se prega não funciona.

    Abraço!

    LeMarc

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