Início » ...em forma de Conto » A Vaca Sagrada

A Vaca Sagrada

Vaca Sagrada

Um jantar normal. Uma família normal, sentada numa mesa vulgar, numa cozinha comum. Ao todo são cinco pessoas: dois adultos, dois adolescentes quase adultos e uma criança de nove anos. Em frente a cada um está colocado um prato, onde bailam alguns quadradinhos de carne de vaca, acompanhados de cebolas estufadas, esparguete e salada de alface. Uma delícia!…

– Mãe, que carne é esta? (criança olhando desconfiada, para o prato)

– É carne de vaca. (mãe, distraidamente)

– Não posso comer. (disse a criança, com o posso muito bem articulado, quase soletrado)

– Não percebi… porquê? (mãe, admirada)

– A vaca é sagrada e não se pode comer. (criança, com convicção)

– Isso é na Índia! (pai, começando a comer)

– És mesmo bebé… (irmão, com a boca atulhada)

– A Shital é portuguesa e não come carne de vaca. (criança)

– Nós somos hereges, não somos hindus, alguém quer água? (irmã)

– Não sou bebé! O que é herege? (criança, despertando para outra questão)

– Filha, a Shital é hindu, nós não somos hindus, a vaca não é sagrada para nós. (mãe tentando ser pedagógica e fazer-se ouvir, ao mesmo tempo)

– Vou sentir-me enjoada se comer um animal sagrado… (criança em tom de súplica)

– Ah, esse enjoo… faz-me pensar na pescada. Quem diria que a pescada também é sagrada… (pai)

– Isso é diferente, pai. (criança)

– E as sagradas ervilhas… (irmã erguendo os braços para o teto)

– O que é herege? (criança)

– É o ponto de vista das igrejas em relação aos não crentes. A alface sagrada, alguém conhece a alface sagrada? (irmão servindo-se de mais salada)

– Ó mãe!?… (criança pedindo ajuda)

– E a couve sagrada. (irmã, servindo-se de mais alface)

– Vamos invocar os espinafres sagrados? (irmão)

– Mãe… diz para eles pararem!… (criança, mimalha)

– Podemos fazer um altar de pescada sagrada, brócolos sagrados e alho francês sagrado, o que é que acham? (irmã)

– Vá, deixem-na lá!… Comes metade dessa carne sagrada e se refilas mais, come-la toda! (mãe)

– Está bem, está bem!… (criança resignada)

– A propósito de vaca sagrada, podias fazer um franguinho de caril?!… (pai sorrindo à ideia)

– Mana, agora a sério, o que é herege? (criança começando o verdadeiro massacre)

– Já te expliquei. (irmão)

– Agora estou a comer vaca sagrada e o mano já te explicou… (irmã)

– Mas eu não percebi bem o que é herege. O que é herege?!… (criança insistindo)

– Desenrasquem-se… (mãe e pai, ao mesmo tempo, para os irmãos mais velhos)

Anúncios

16 thoughts on “A Vaca Sagrada

  1. Lu, dei boas risadas! Explicar aos pequenos a riqueza de culturas do planeta é muito difícil. Sem falar nas diferenças de comportamento. Em alguns países é ofensivo não darmos um arroto ao final da refeição, aqui é extrema falta de educação. Para irmos de visita a um país, é bom que estudemos seu comportamento e cultura. Bjks

    Gostar

    • Cris, eu vivo num bairro onde está implantada uma das maiores, senão a maior, comunidade hindu em Portugal. Só para fazeres uma ideia, na turma da minha filha mais nova, em 21 alunos, 4 são indianos e todos eles são hindus. Este povo é extremamente discreto no que respeita à sua religião e duma maneira geral, mesmo as crianças, raramente abordam o tema, mas a escola (porque a comunidade é multirracial – a percentagem de africanos é ainda maior do que a de indianos) promove frequentemente, com a participação dos pais e encarregados de educação, eventos (refeições de pratos típicos, vestuário, arte, leitura de lendas e histórias, etc.) que abordam usos e costumes dos diversos povos, daí que as crianças tenham noção dos diferentes hábitos dos povos.

      Claro que, neste caso, a vaca sagrada veio mesmo a calhar! 😀

      Beijinhos!

      Gostar

    • José, com a nossa vida complicada, o jantar e as refeições de fim de semana são os únicos momentos em que conseguimos estar todos juntos. Estes “massacres” entre irmãos acabam por ser um elo importante para todos nós.

      Muito obrigada por participares!

      Gostar

  2. Luisa,

    Fiquei a imaginar este diálogo cujo tema é bem saboroso, rsrs, mas crianças ou são curiosas ou são fiéis ao que ouvem, rsrs, e procuram logo por em prática, difícil é os pais tentarem explicar o que realmente procede para não deixa las tão confusas, rsr, e não ficarem confusos com tantos argumentos…Uma certeza tenho o cardápio do jantar esta convidativo…rs

    Beijos

    Gostar

      • Olá Mauro,

        Quanto à carne, penso que ela é necessária para o nosso equilíbrio, nós é que não sabemos consumi-la com racionalidade. Pelo menos, pela parte que me toca… 😦

        Muito obrigada pela participação, grande abraço!

        Gostar

    • Cecilia,

      Esta minha filha é demais! Adapta as coisas mais esquisitas às suas necessidades do momento. 😀 😀

      Claro que os irmãos, apesar de terem mais uma dezena de anos do que ela, adoram espicaçá-la “descendo” aos 9 anos! Mas ela não se deixa intimidar e massacra-os com perguntas difíceis até eles perderem a paciência! 😛

      Beijos.

      Gostar

  3. Luisa ,
    O mais importante nesse debate sobre a vaca ou sobre O significado de uma palavra é que a família esta sentada reunida para uma refeição . Coisa muito importante e chega a ser uma raridade nos dias de hoje . Isso é gostoso e torna-se uma referencia para as os adultos de amanhã .

    abs
    Francisco

    Gostar

    • Francisco, bom dia!

      Pois é, meu amigo, o jantar é o único momento onde conseguimos estar todos juntos e fazemos questão disso, pois com a vida atribulada que temos e dois dos filhos já crescidos, fica difícil convivermos noutras alturas. Como tu, eu também penso que é muito importante! 🙂

      Abraços e obrigada pela participação.

      Gostar

  4. Luisa, voce é otima para contar este tipo de estória. Alias, pensei em voce que tem 3 filhos, podia ser uma conversa na mesa! kkkkkk

    Lu, quando eu era garotinha, todo ano havia um animal novo no quintal que desaparecia depois das festas de fim de ano. Uma vez tinha um cabritinho branco e lindo. O meu pai nao deixava chegar perto (provavelmente para nao criar laços). Na vespera do Natal eu já sentia falta dele, olhava pela fresta do portão e não o via. No DIAAAAA…. a mesa cheia de primos… eu olho para o prato e pergunto:
    – pai, que carne é essa!
    – come, que é boa! – meu pai
    – pai, que carne é essa!
    – se perguntar muito, eu pego a sua parte – disse meu primo chatonildo
    – pai, que carne é essa!
    – come sua burra, que é o seu cabritinho! – disse o meu primo!!!!
    Eu saí indignada e chorando, claro, não comi mais nada.

    Esta é uma das mil historias que já passei e com meu primo chatonildo da silva.

    Beijos

    Gostar

    • Sissy, a tua história fez-me lembrar outra… 😀 😀
      Esta não tem a ver comigo diretamente, mas passou-se na minha infância. Qualquer dia conto-a!

      Beijinhos e obrigada pelo teu conto!

      Gostar

  5. Eu adoro uma vaca fatiada assada numa boa churrasqueira! Lu, o mais importante da sua história foi mostrar a família reunida à mesa numa refeição, coisa que aqui em casa só raramente acontece.

    Gostar

Bote abaixo!...

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s