‘Amor às primeiras linhas’, por Ivani Medina

Conto por Ivani Media

Ele a percebeu pela primeira vez num texto dela, a passear por entre as palavras como se num caprichoso jardim mourisco. Continuar a ler

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Curiosidade sobre a morte, por Ivani Medina

Art by Vladimir Kush

 

Conto por Ivani Media

Bené estava aposentado há poucos anos e vez por outra pensava na morte. Não por medo, o que é muito natural, mas por curiosidade. Continuar a ler

Muito macho!

 

O Manuel, Nelo para a malta, quase no fim da casa dos trinta, impõe-se, onde quer que entre, ou saia, pela boa figura, cujo relevo abdominal começa a preocupá-lo secretamente, embora ele prefira acreditar que é status de fartura na mesa e um pé de meia no banco, símbolo dum ócio bem bebido, de trabalho bem feito e muito suado, porque homem que é homem, tem que chegar à sua idade com uma família contente e uma amante satisfeita, tudo sincronizado na mais perfeita harmonia.

À mulher que muito ama, pessoa decente e merecedora do estatuto, dá a casa a comida e a roupa lavada, embora, a confeção destas duas últimas estejam por sua conta, e ainda, muita liberdade, pois ela é de confiança, de modo que, ela gere como entende o dinheirinho que ele lhe deixa para a semana, assim como as refeições e a lida doméstica. Às vezes intervém, mas só quando é absolutamente necessário, e, mesmo assim, em coisas que a mulher não tem habilidade ou força para fazer, como sejam mudar as lâmpadas, desentupir o ralo da banheira, ou dar uma “abanadela” na diretora da escola dos putos. Outras vezes, o Nelo, em dias estipulados, mesmo que pareçam ao acaso, dá-lhe um beijo fora do contexto dos seus deveres de esposo, os quais cumpre escrupulosamente, em verdade se diga, o que muito a satisfaz, o beijo, está visto, pois os deveres são deveres. A mulher só lhe tem dado alegrias, para além de dois filhos que são o seu orgulho e a luz dos seus olhos, por isso, o Nelo tem muito prazer em lhe proporcionar uma vida boa. O Nelo sabe que a mulher é muito feliz, pois não faz nada, está todo o dia em casa; só tem que tratar do lar, das roupas, das refeições, da educação dos filhos, das compras e do marido, quando ele, por ventura, está em casa.

Aos filhos, que adora, dá tudo o que pode, dentro de uma certa rigidez, é certo, pois os garotos têm de ter rédea curta, mas, nunca deixou de ir com eles ao futebol uma vez por ano, nem de os levar a ver os avós no Natal. Os rapazes têm boa cabeça para a escola, e a mulher trata da parte cultural, levando-os ao parque, aos eventos escolares e desportivos, e ainda, aos teatros, que é para eles se habituarem às representações da vida.

A amante do Nelo também vive feliz, pois ele tem o cuidado de a levar, em dias certos, para jantar fora, espairecer, beber umas bejecas e, claro, terem os seus momentos de intimidade, devaneios e loucuras, que são o alimento da alma. O Nelo também tem muito orgulho na amante, que é uma rapariga alegre mas decente, pouco exigente, um perfume aqui, uma flores ali, mais umas poucas de dezenas de euros semanais, para ajudar nas despesas de casa, nada incomportável; é um tanto vistosa, é certo, ri muito alto, é verdade, mas que importância tem isso, se os outros cobiçam, mas ele é que come?