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Desabafo de uma Desempregada sem Fome

Caminhada

– Bom dia vizinha!

– Viva, bom dia… vai caminhar?

– Vou… um quarto de hora, vinte minutos…

– Como sempre… se não se importar vou consigo, mais uma vez, como sempre… mas hoje não quero conversa, tenho um assunto a por em dia comigo mesma…

– Está bem… então vai conversar consigo, ou vai ficar muda…

– Vou conversar comigo, assim oiço melhor, a memória auditiva é muito importante… pedia-lhe que não me interrompesse…

– Fique descansada, posso registar?

– Na cabeça ou num gravador?

– Na cabeça…

– Está bem, mas depois quando for reproduzir, não faça muitas alterações.

– Certo…

– Não gosto de pontos nos contos…

– Tentarei reproduzir com a máxima precisão possível!

– Confio em si.

– Vá começa… estás desempregada.

– Estou desempregada.

– Não me digas… que chato! Já olhaste para este país? É mesmo desmoralizante, não achas?

– Desmoralizante é quando os credores me batem à porta, ou o telefone toca e a irritante voz da menina da companhia de eletricidade, me lembra que a última fatura já está vencida. Isso é que é desmoralizante!

– A coisa está mesmo má…

– Está insuportável! Da última vez até nos bolsos dos casacos andei à procura de dinheiro perdido…

– Faltou aí a parte de estarem milhares de pessoas no desemprego…

– Obrigada vizinha, mas faça o favor de se remeter à sua condição de registadora, ou sou obrigada a despedi-la…

– Ok… ok…. Já cá não está quem falou!…

– Sempre podes contar com familiares e amigos.

– Pois enganas-te! Os meus amigos, subitamente, estão todos muito ocupados. Nem responderem às minhas sms’s, na verdade só lhes posso oferecer um chazinho… não há dinheiro para whisky e salgadinhos, nem idas a bares e teatros… e os meus familiares mais chegados, até para ficar com os filhos, ao sábado à noite, eles deixaram de me chamar!… Se calhar têm medo que lhes cobre as horas que estou com os putos, ou que lhes peça de jantar…

– Talvez pensem que o desemprego é uma doença contagiosa, não os podes culpar…

– O que eles pensam é que eu lhes vou pedir dinheiro emprestado, é o que é, e por isso eu já os culpo. Não me conhecem há tantos anos?

– Mas tem a sua graça vê-los fugir de ti…

– Como se um desempregado tivesse lepra!

– Ainda me vou rebolar a rir, quando os vir sair da Segurança Social com os papéis numa mão e um sininho de identificação de leprosos na outra… é ver as multidões afastarem-se, depois podes viajar sozinha nos elevadores e nos autocarros… e no metro?! Uma carruagem só para ti, um luxo. Vai ser um fartote!!

– Achas que tens muita piada, não é? Pois fica sabendo, tudo o que me acontecer a mim, acontece-te a ti também, ó espécie de consciência palhaça e sem miolos.

– E aquele teu namorado, tão simpático e tãaaooo assíduo ao pequeno almoço?…

– Ah… esse…

– Não vais chorar agora…já temos humidade que chegue, com esta chuva fininha!…

– Ele… ele finalmente apercebeu-se dos meus defeitos e achou melhor afastar-se por um tempo.

– Valha-nos isso! De repente pensei que também ele estivesse leproso…

– Não… foi só tomar consciência da debilidade dos seus sentimentos…

– Espero que volte com eles mais fortes e brilhantes!

– Pois eu espero que ele não me apareça à frente, pois vou desfazê-lo!

– És cinturão negro?

– De quê?

– De qualquer arte marcial.

– Não. Mas sei identificar um pau de boa madeira e pegar nele…

– Ah… o velho método tradicional!…

– Não faltou dizer que tinham pensado ir viver juntos?!…

– Outra vez a meter o bedelho?

– Desculpe…

– Pois, íamos viver juntos, mas esta circunstância alterou tudo…

– Pode não ter alterado os sentimentos.

– Vai bugiar! E porque é que ele nunca mais apareceu, porque está sempre cheio de trabalho, ou cansado, ou com um compromisso inadiável…

– Anda tudo numa roda viva…

– Balelas… descobriste ao mesmo tempo que eu, e já lá vai algum tempo, que o amor, para funcionar, tem que ter uma plataforma estável. Se um descarrila, mais cedo ou mais tarde o comboio explode e fica sem preparação.

– O teu comboio descarrilou… mas anda me tens a mim.

– Grande conforto… arranjas-me um trabalho?

– Bem, sempre podes contar com a minha companhia nas filas de espera para entrevistas, para redigir os currículos, para fazeres a caminhada…

– A solidão até me tem feito bem.

– Ai sim?

– Ai sim?

– Percebi que gosto de mim como sou… na verdade, às vezes sou assombrada por terríveis dúvidas, mas nada que me faça perder o sono, deixei de ter necessidade de mendigar companhia. O problema do desemprego é aflitivo, mas não estou a passar fome, posso comprar os meus medicamentos se estiver doente, não tenho filhos para alimentar e cuidar, enfim, sou uma desempregada sem carências.

– É verdade…

– É verdade…

– Mas ando tão revoltada e enervada!… Hoje vou ser entrevistada numa empresa. Penso que tenho valor e estou bem preparada para o cargo. Vamos lá a ver…

– Se não for desta vez, outras oportunidades surgirão.

– Ia dizer o mesmo….

– E como disse, vizinha, a sua situação não é das piores…

– Pois não, não é mesmo nada das piores…

– Mas estou tão revoltada com esta politica de austeridade… Está tudo mal feito, está tudo ao contrário! Sabe que eu, mesmo com um enorme sacrifício, nesta fase complicada, não tive coragem de despedir a D. Aurora? É que ela perdeu mais de metade das casas onde trabalhava e tem três filhos pequenos, todos dependentes dela… Ela sim, está a sofrer no corpo e na alma!… Se visse algum politico por aqui a caminhar, era bem capaz de lhe torcer o pipo…

– Quanta poesia… É melhor não te meteres com políticos, ainda vais de cana… e depois, mesmo que chovam trabalhos, não te podes candidatar a nenhum!

– E eu ajudava com uns pontapés!

– Iam as duas de cana…

.

15 thoughts on “Desabafo de uma Desempregada sem Fome

  1. Parece que a crise está fazendo suas vitimas por ai. Fale para a vizinha vir para o Brasil, o dólar está valendo quase dois reais e assim com alguns dólares ela monta uma padaria ou um horte frutas, e se nada der certo ainda sobram as escadarias das igrejas para uma mendigaçãozinha.

    Um abração minha amiga!

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    • Manuel, sei lá se essa não é uma solução mais saudável…
      Aqui há tempos o meu filho mais velho dizia que, quando acabasse a faculdade, iria para a Nova Zelândia. Apesar de ser tão longe, teve logo o meu apoio moral todo! rsrsrs

      Abraço apertado, amigo!

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  2. Olá Luiza… é a crise está pegando né amiga?! É enervar ver a política roubar a cena de trabalho de milhões de pessoas honestas… Sempre quis entender porque as crises não se avolumam para os políticos….
    Beijo no coração

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    • Valerinha, acho que disseste aí no teu comentário a palavra mágica: honestidade. Na sequência deste raciocínio parece-me que a crise foge dos corruptos e desonestos, então vem colar-se às pessoas honestas e boas. É uma espécie de carrapato dos pobres…

      Beijinhos!

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  3. Oi Luisa,

    adorei a sua criatividade neste texto, dialogar em silêncio com aquilo que em nós sempre se cala, em tempos de crise a criatividade pode ser uma enorme aliada.

    Desejo dias melhores por aí, para todos!

    Um beijo

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  6. Olá Lú!
    A mulher conversando com sua co presença, porque será que todas as co presenças, ( arranjei um nome pro outro eu da mulher kkkkkk ) são mais ajuizadas que seu donos? Acho que porque elas não precisam comer nem trabalhar kkkkkkkk mas creio que as co presenças preferem que sua dona não tenha namorados, por medo da concorrência, kkkkkkkk ela adoram a auto suficiência..kkkk
    Abração!

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    • Ai Frank, essas co presenças, ou consciências, ou almas do outro mundo, ou outro epíteto qualquer, são umas desmancha prazeres danadas! Encontram defeitos e contradições em tudo o que dá prazer a um pobre ser humano!😀😀

      Abração e obrigada pela visita!

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  7. Lu,
    Dei muitas risadas. Sei que a crise por aí não é nada engraçada, mas você tem o poder de transformar através da escrita. Tenho conversado muito com minha consciência, estou desempregada a muito tempo e não consigo colocação por causa da idade. Quando os orientais valorizam a sabedoria dos mais velhos, nós, ocidentais preferimos juventude à experiência. Bjks

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