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A beleza da natureza

Ciclo da vida

A nossa sensibilidade é uma coisa. A análise dos factos é outra.

Quanto à primeira, devo dizer que eu não consigo matar pelas minhas próprias mãos uma mosca. Isto é literal. Nunca matei intencionalmente nenhum animal, ou inseto, ou reptil ou peixe. Sou uma pessoa nascida e criada no campo, mas imaginar matar algum animal é algo que me perturba e duma maneira geral enxoto-os. Quando era criança era capaz de roubar tangerinas, melancias ou maçãs até em terrenos vedados, o que significa que também era uma boa peste a saltar muros e cercas de arame farpado, mas nunca fui capaz de pegar numa flobert para matar pardais ou arrancar a cauda a um girino ou a uma lagartixa. Matar ou mutilar algo que a minha consciência entenda como vivo, é-me impossível. No entanto não me sinto minimamente agredida na minha sensibilidade ao deleitar-me com um suculento bife, ou a lambuzar-me com uma coxa de frango, ou a petiscar perninhas de rã. A natureza humana é misteriosa… Poderei eu tecer considerações sobre outros seres humanos que matam galinhas ou porcos, sem que isso os angustie, ou sobre uma cobra que engole um rato atordoado, ou um peneireiro que agarra em voo picado um pequeno coelho? Penso que não.

Aos meus olhos a natureza é bonita, linda mesmo. Mas lendo o texto que deu origem a este, onde é questionado “o que é que passa na cabeça das pessoas que faz com que elas digam e acreditem que a natureza é bonita, perfeita, maravilhosa?”, ou seja, o porquê das pessoas verem alguma beleza na natureza, atendendo ao que vulgarmente chamamos de cadeia alimentar, dou-me conta, não de que a natureza é feia ou horrível, mas de que nós, seres humanos, à luz dos nossos atuais valores e da nossa inconsciência de que somos parte do mundo natural, dou-me conta, dizia eu, de que a natureza é extremamente violenta.

Todos somos seres vivos, e não nos podemos esquecer de nós próprios, todos fazemos parte do mundo natural, todos tentamos sobreviver e somos vorazes. Não entrando com os artifícios que a humanidade inventou para sobreviver e evoluir, alguns, diga-se de passagem, deploráveis, no meu entender o sentido da sobrevivência na natureza é amoral, ou seja não está sujeita à nossa apreciação moral ou ética ou crítica. Sobreviver é uma caraterística da própria natureza dos seres vivos e cada um de nós usa, na tarefa de sobreviver, as armas que fomos adquirindo ao longo de milhões de anos de evolução. Até à data e numa análise apaixonada, são os seres humanos os únicos seres da natureza dignos de julgamentos morais e éticos no que respeita à sobrevivência; digo numa análise apaixonada visto referir-me ao momento em que vivo e à observação que faço do mundo e das atrocidades que nele deambulam, mas a natureza, o mundo que conhecemos, apesar de tudo, genericamente falando, consegue manter-se em equilíbrio e é realmente muito belo.

Mesmo que nós, seres humanos, não tenhamos consciência do facto, o que acontece é que o mundo está em evolução, tal como estava há duzentos mil anos ou há vinte mil ou há dois mil, e os seres vivos antes de mais, não têm qualquer vontade de ficar para trás, sejam vírus, insetos, pássaros, ursos ou homens. Muitos ficarão pelo caminho é certo, independentemente de não se conseguirem adaptar a novas inúmeras possíveis condições naturais ou artificiais, ou de serem os humanos a acabar-lhe com a espécie, mas mesmo assim, possivelmente porque sou uma camponesa, é no meio de um ambiente natural e acrítico que me sinto menos artificial e, apesar de toda a sua voracidade, eu sinto que faço parte dele. Felizmente vivo numa época em que não preciso de caçar para comer, senão era seguramente vegetariana!

E será que eu tenho plena consciência de que os vegetais são seres vivos?!… É pouco provável pois nunca os trato como tal, coitados! A perspetiva antropocêntrica da natureza ilude-nos a realidade dos factos e isso torna-nos não menos naturais, pois essa é uma caraterística à qual não podemos fugir, mas mais arrogantes e tolos.

 

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6 thoughts on “A beleza da natureza

  1. Grande Luisa, um texto muito pertinente e que leva-nos a uma reflexão. Eu, por exemplo, para ser sincera, sempre achei terrível a cadeia alimentar, sempre tive pena dos mais fracos, os quais servem de refeição aos predadores, eu via como injustiça. Ora, mas como os predadores se alimentariam, não é? Confesso torcer para a presa, para a caça, para o alimento!
    Eu não como carne vermelha, mas como carne branca. Não por algum tipo de princípio, mas por não gostar realmente. Não caço e não pesco, mas compro e devoro. E amo as verduras e os legumes, o que não me torna melhor que os predadores da selva já que, assim como eles, preciso de comida.
    Muito bom como sempre. Estou feliz com seu retorno. Beijos!

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    • Olá Sandra,
      Sabes, eu penso que a grande maioria de nós, numa apreciação vaga e apaixonada no que respeita à natureza, reage com pena dos mais fracos, pois sabemos que os prerdadores serão vencedores e viverão, visto na natureza não existirem Césares indulgentes. Mas esta é uma apreciação consciente e racional para tentar compreender o nosso comportamento em relação à natureza, e eu estou contigo, também sou defensora dos fracos e oprimidos. rsrs
      Beijos e obrigada. 🙂

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