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Oportunidades perdidas

Arte por Vladimir Kush

Mais uma vez olhou para os cargueiros atracados no porto e numa espécie de decisão resignada, parou de sonhar com aquele abraço forte e meigo; endireitou os ombros e ergueu a cabeça, como se isso fosse o suficiente para enfrentar a penosa realidade, a de que as oportunidades que se perdem não se encontram jamais, mas não estava certa de ser assim. Pensou, talvez por hábito, talvez para se animar, que as oportunidades não se esgotam e uma oportunidade é apenas uma oportunidade, que se fosse uma real oportunidade não a teria perdido, afinal o que era uma oportunidade, neste caso era viver um amor apaixonado, nada mais do que isso, embora isso, naquele momento, fosse quase tudo.

Para ter esta oportunidade, a de ter o seu amor perto de si, ia perder muitas outras oportunidades, compromissos com ela mesma dos quais se orgulhava e precisava para ser feliz. Talvez aquela fosse uma real oportunidade e talvez estivesse perdida, talvez se a procurasse com cuidado voltasse a encontrá-la, essa era outra possibilidade. Olhou distraída para o cais e imaginou o que diria a sua mãe, era possível que a olhasse com tristeza e lhe dissesse uma frase ou mesmo algumas frases de incentivo, ladainhas triviais que vendem milhares de livros e cuja serventia considerava duvidosa, riu-se para si própria enquanto imaginava um semblante apropriado, para receber condignamente o discurso da mãe. Querida mãe.

Pensou que esta era a altura apropriada para viver sozinha, afinal tinha vinte e sete anos, imaginou um pequeno apartamento, talvez perto do seu trabalho, e viu-se a colocar um quadro na parede, radiante porque o efeito era o ideal e por sentir o prazer de um beijo no pescoço nu. Decidiu ali mesmo que estas visões não lhe iriam amputar as ações, iria procurar uma casa e trabalhar nela, iria pintá-la, procurar móveis baratos e restaurá-los, iria dar movimento ao corpo, fortalecer os músculos e a vontade como se a força desta fosse diretamente proporcional à dança forçada do corpo.

Cogitou, espantada com o próprio pensamento, que dos fracos não reza a história e mesmo que aquela frase feita não tivesse nenhum significado especial, aliás não a apreciava particularmente, concluiu que os heróis por si só também não fazem a história e sentiu-se alentada por pertencer àquela massa viva e anónima, que dá forma a heróis e faz das oportunidades perdidas, não empecilhos de arrependimento e desespero, mas a dor real que dilacera a alma e faz brotar a criatividade e o empenho.

As oportunidades perdidas, pensou, são apenas especulações estéreis, balões vistosos cujo conteúdo é apenas ar. As oportunidades perdidas são apenas justificações fúteis para espectativas goradas, nada mais do que isso. A dor, essa era real e maltratava. Virou as costas ao cais e começou a andar, não em passadas muito largas, mas decididas.

 

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One thought on “Oportunidades perdidas

  1. É, as oportunidades perdidas podem ser bem mais que oportunidades perdidas, elas podem ser o adeus a algo relevante em nossas vidas, adeus a algo que faria toda uma diferença. Como também podem servir de aprendizado, talvez uma ajuda do destino para evitar um futuro de lágrimas, enfim as oportunidades perdidas podem significar muita coisa. Mas o mais importante é não desistir, não abrir mão de outras chances que, eventualmente, surgem em nosso caminho. Não desistir de caminhar e, seguir sim, em passadas decididas.

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