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Amores platónicos

A Young Girl Defending Herself Against Eros, W. A. Bouguereau  (1880)

Eros escolheu-me, entre quase sete mil milhões de pessoas por esse mundo fora, para ser alvo das suas judiarias infantis. Distraída como sou, nem reparei que o malandrim me tinha atingido com uma flecha certeira e quando dei conta, já a minha alma se tinha escapulido pelo buraco do peito e voava até ti, meu amor.

Ah, que alvo fácil eu fui para o filho de Poros e Pínia, ou Afrodite e Hefesto, Zeus ou Hermes, enfim, seja qual for a sua ascendência, o facto é que o filho da mãe acertou precisamente no meu coração. Agora navego no mar revolto das finanças desesperadas com uma ferida no peito, que por pouco não me atingiu os pulmões.

E digo-te, meu amor, conquistar-te tornou-se a minha segunda maior obsessão – a primeira é perguntar pessoalmente ao Ricardo Salgado, o que é um Banco? – e para alcançar esse desejo tão intenso, tão avassalador, estou na disposição de desligar-me do Facebook e dos delírios do Seguro, revolver céus e terra até finalmente ter-te. Dia e noite a expressão marota do teu rosto e a imagem do teu corpo pleno de peitorais, dorsais, abdominais e outras coisas mais, povoam o meu imaginário até à dor. Juro-te, vi, por diversas ocasiões, a tua figura substituir os campos a preencher no estúpido programa com que trabalho; parecia tudo tão real, tão divinal, que eu, durante bastante tempo me recusei a aceitar que era alucinação!

Na tentativa de esquecer-te saí por aí para divertir-me na noite, beber umas cervejas, ensurdecer, pensar na história mal alinhavada do João Gouveia e, quem sabe, encontrar alguém mais ideal do que tu, para finalmente poder voltar para o Facebook, de modo a que o PRISM não perdesse pitada do que se passa no meu perfil. Mas todo este sacrifício foi em vão, pois eras tu, meu amor, era o teu sorriso que eu via a iluminar o rosto das outras pessoas. Sentia que andava em círculos, o teu sorriso, a história infantil do João Gouveia, o BES, as pretensões do Seguro, o Facebook, a estupidez elitista das praxes, o teu sorriso… acabava sempre por parar no lugar de onde tinha partido.

Então, finalmente tomei consciência de que todas essas tentativas para te esquecer eram tão inúteis como as tentativas do cessar fogo em Gaza e tomei a decisão de conquistar-te definitivamente, tenho pressa de me tornar dona do teu coração e voltar ao Facebook.

O amor gosta de surpresas, tal como as tempestades e as visitas dos EUA ao Iraque, e nunca nos avisa quando pretende chegar, nem onde, nem em que altura do dia, ou da semana, ou da vida. No fundo, no fundo, esta estratégia do amor tem a sua lógica, ele pretende que estejamos abertos para a sua adorável aparição, sempre que não é imperativo estarmos fechados; no meu caso, se o amor me batesse à porta num sábado, eu nunca o encontraria, nem ele a mim, pois esse é o dia em que os diversos cristãos tocam à minha campainha e eu finjo que não estou.

Desta forma, amor da minha vida, aguarda-me…

 

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9 thoughts on “Amores platónicos

  1. Luísa, nem te diria antes, mas, estranhamente, milhões de pessoas se identificariam com essa crônica. Ela é quase profética: se não se cumprirá na vida de um tal casal, já aconteceu em seus sonhos.

    “Lei do eterno retorno”, como diria Kundera. Tudo está irremediavelmente perdoado de antemão e, por isso mesmo, perdido para sempre.

    Um abraço!

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  2. Emudeci com a combinação de fatos da realidade, rasgos de emoção e desilusão, jogo de esconde e se esconde, emoções espalhadas e juntadas, bombas dos horizontes físicos bobeando corações….

    …. em imagens divinas que apontam decisões…

    Gaza, Iraque…

    Bem,

    Hoje não é sábado, mas já vou me esconder dos diversos chatos, entre eles os cristãos.

    Massa Luísa.

    Muito massa!

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  3. Luísa, fantastico! Eu tambem devo fazer parte dos 7 milhoes. Sabe, a flechada, na verdade, me pegou nas nádegas, por isso tenho mancado já tem alguns anos. Quanto aos EUA, sempre estão tomando conta de alguma coisa ou de alguem, é o poder quase absoluto.

    bjs

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