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Fundamentalismo e velhinhas

Mãos em prece – Albrecht Durer

Numa conversa virtual entre amigos de diversos credos e sem credo…

É muito difícil argumentar ou discutir uma ideia com um fundamentalista, dizia eu. É uma perda de tempo e de energia, especialmente se o fundamentalista for religioso. Discutir um pensamento ou um dogma com um crente de espírito aberto é possível e quase sempre edificante – não senhores religiosos não é porque eles se desconverteram ou pensam em tal, é apenas, e por incrível que vos pareça, ainda existem pessoas religiosas que admitem outros saberes -, mas com um fundamentalista é impossível.

A propósito do tema fundamentalismo lembrei-me duma história que em tempos li no livro Platão e um ornitorrinco entram num bar… de Thomas Cathcart e Daniel Klein e com ela tentei ilustrar o meu pensamento. A anedota reza mais ou menos assim:

Uma velhinha cristã todos os dias quando acorda sai de casa e no alpendre da sua casa e grita:
– Louvado seja o Senhor!
E, todas as manhãs, um velhinho ateu que vive na casa ao lado grita em resposta:
– Deus não existe!
E isto repete-se durante anos.
– Louvado seja o Senhor! – diz a velha senhora cristã.
– Deus não existe! – diz o velho ateu.
O tempo vai passando e a velha senhora começou a ter problemas financeiros, visto viver apenas de um pequeno rendimento que veio a perder valor ao longo do tempo, e passava por sérias dificuldades ao ponto de não conseguir comprar comida. Certo dia desesperada sai de manhã para o alpendre e faz uma prece:
– Senhor, estou com tantas dificuldades para comprar o meu sustento e já não tenho forças para trabalhar, por favor tem piedade de mim. Louvado seja o Senhor!
– Deus não existe, grande teimosa! – responde o velho ateu e de seguida vai abastecer-se na mercearia para poder ajudar a vizinha.
De madrugada, antes da velhinha acordar, o velho senhor deixa no alpendre da velha senhora dois sacos cheios de comida e volta para o seu alpendre para ver o que acontece. A velhinha sai de casa e ao ver as compras quase chora de alegria e grita com quantas forças tem:
– Louvado seja o Senhor!
O velho ateu grita do seu alpendre:
– Ah, sua velha tonta, Deus não existe! Fui eu que comprei essas mercearias.
A velha senhora olha para o céu e diz:
– Louvado seja o Senhor! Louvado sejas Senhor, pois não só ouviste o meu pedido como fizeste Satanás pagar as compras!

Depois da história contada, um jovem cheio de boa vontade cristã, vem em defesa da velhinha da história bradando em maiúsculas, negrito e sublinhado:

MORAL DA HISTÓRIA: “O homem de bem deixa uma herança aos filhos de seus filhos, mas a riqueza do pecador é depositada para o justo.” (Provérbios 13:22)
E ainda…
“Porque ao homem que é bom diante dele, dá Deus sabedoria e conhecimento e alegria; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte, e amontoe, para dá-lo ao que é bom perante Deus.” (Eclesiastes 2:26)

Eu até fiquei sem palavras de contente. A “moral da história” que o rapaz apresentava para a espécie de anedota que eu contei é simplesmente perfeita! Ela é a cereja que faltava no meu argumento sobre o fundamentalismo religioso.

A velhinha da minha história ficou justificada na sua cegueira e no seu fanatismo cristão, e muito bem, com Provérbios 13:22 e Eclesiastes 2:26. Segundo a religião do rapaz, que diz ser católico, certamente que as velhinhas fundamentalistas, idênticas à da história, irão para o paraíso quando morrerem e os velhinhos ateus, teimosos e generosos, vão para o inferno.

Mas para mim, pouco dada a céus e infernos, mais voltada para a vida e para a luta do bem-estar no dia-a-dia terreno, da história apenas entendi que as pessoas vêm o que querem ver, vêm o mundo do seu ponto de vista e os fundamentalistas ficam presos nesse ponto de vista, sem mobilidade ou desejo para procurar outro lugar, donde possam observar uma perspetiva diferente do horizonte. Do sítio onde estou vejo uma história que ilustra um pensamento, nessa história a moral e ética da velhinha é deplorável, o que não é difícil de deduzir atendendo ao seu comportamento pouco grato e malicioso e vejo também a justificação bíblica para esse comportamento.

No fim disto tudo começo a perceber as guerras santas.

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10 thoughts on “Fundamentalismo e velhinhas

  1. Eu não penso nem de um jeito, nem de outro. Normalmente não entro nestes tipos de conversas, porque um sempre quer convencer o outro.Não há uma troca. Mas um vence-perde. E neste tipo de conversa não termina nunca! Ou seja, o ateu quer convencer o cristão e vice versa.

    Mas é você. Então eu vou, pela primeira vez, falar sobre isso.

    Veja bem : a velhinha foi chamada de “fundamentalista” e ainda por cima, de não se mover. Ela era velha, sem perspectiva. Uma hora teria que agir. Nem que fosse deixar-se morrer. O ateu, prospero e consciencioso tenta de forma nervosa, mostrar que não acredita em Deus. Do mesmo jeito que ela agradece todos os dias, o ateu tenta dissuadi-la da fé dela.
    Um feliz (mesmo na diversidade), e o outro nervoso, (mesmo no progresso). Interessante, né?
    E qual a raiva dele? Ela acreditava em Deus. E ele se moia de raiva disto. Tinha de desmenti-la!!!

    O que ele ganha com isso? Qual é o problema do ateu? Ele acha que sabe mais que os outros? Que um crente (digo, crente na perspectiva de crer e não dogma religioso) é um burro, um cego, um demente? O que ele tem com isso?

    Viajei por 78 cidades por todo país, durante 2 anos. Vi crenças de todos os jeitos. As pessoas, independente do seu nível econômico, se apegavam à um ou outra forma de manifestação religiosa. Aquilo era o sustento delas! E vou tirar isto por que? Pra que? Chama-las de fundamentalistas? Convencer um moço lá do sertão que Deus é uma mentira? Uma ilusão? Pra fazer bem a quem? O que eu poderia dar de sustento a ele, se há nele a firme necessidade de guiar-se assim?

    Não, eu não fiz isso. E jamais faria isto! Minha responsabilidade social não me permite isto.

    Agora eu tenho um final diferente para esta história. Em vez de criar esta coisa de troca de ofensas, o autor bem poderia ter colocado a seguinte frase na velhinha.
    – Bendito seja o Senhor, que através de um anjo, proveste minha casa de alimentos.

    Afinal de contas, o “produto” da fé tem suas formas de manifestar. Nem que seja incomodando um ateu.

    No finalzinho de tudo vou com você ao descortinar a base das guerras santas

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    • Eu não penso nem de um jeito, nem de outro. Normalmente não entro nestes tipos de conversas, porque um sempre quer convencer o outro.Não há uma troca. Mas um vence-perde. E neste tipo de conversa não termina nunca! Ou seja, o ateu quer convencer o cristão e vice versa.
      Mas é você. Então eu vou, pela primeira vez, falar sobre isso.

      Obrigada, amiga! Desde já um grande beijinho para ti e não te zangues com o que eu vou dizer.🙂

      Veja bem : a velhinha foi chamada de “fundamentalista” e ainda por cima, de não se mover.

      É verdade ela é fundamentalista. É isso que a anedota quer ilustrar.

      Ela era velha, sem perspectiva. Uma hora teria que agir. Nem que fosse deixar-se morrer.

      E agiu. Pediu a Deus.

      O ateu, prospero e consciencioso tenta de forma nervosa, mostrar que não acredita em Deus. Do mesmo jeito que ela agradece todos os dias, o ateu tenta dissuadi-la da fé dela.

      Nada na história diz que o ateu era próspero, apenas consciencioso. Porque não pensar que ele comeu pela metade durante uma semana para dar metade à velhinha? – mas este é só um aparte para responder ao teu argumento um nadinha tendencioso… rs

      Um feliz (mesmo na diversidade), e o outro nervoso, (mesmo no progresso). Interessante, né?

      Não sei Valéria, não vejo qualquer nervosismo no velhote. Vejo apenas teimosia.

      E qual a raiva dele? Ela acreditava em Deus. E ele se moia de raiva disto. Tinha de desmenti-la!!!

      Também não vejo qualquer raiva no velhinho, apenas a casmurrice de se achar no direito de, no seu quintal, dizer o que pensa, tal como faz a velhinha. Ou seja, tu acabas de levantar outro problema muito comum nos crentes: os crentes acham-se no direito de bradar as suas crenças, mas consideram sempre que, quem não tem crenças religiosas não pode bradar a sua não crença! Também podemos dizer que a velhinha tinha raiva do velhote, não achas?

      O que ele ganha com isso?

      Nada. Por isso é que a história é para ilustrar o fundamentalismo.

      Qual é o problema do ateu?

      Não sei, deve ser o problema de qualquer pessoa. Os ateus são seres humanos.

      Ele acha que sabe mais que os outros?

      Não. Apenas na sua perspetiva deuses não existem. Talvez essa visão da vida lhe dê mais espaço para olhar em todas as direções.

      Que um crente (digo, crente na perspectiva de crer e não dogma religioso) é um burro, um cego, um demente?

      Não sei, isso não foi referido na história ou na minha opinião. No entanto, penso que um crente, seja dogmático ou não é apenas uma pessoa e como tal pode ser mais ou menos inteligente, como qualquer pessoa.

      O que ele tem com isso?

      Tem tudo. Tem opinião.

      Viajei por 78 cidades por todo país, durante 2 anos. Vi crenças de todos os jeitos. As pessoas, independente do seu nível econômico, se apegavam à um ou outra forma de manifestação religiosa. Aquilo era o sustento delas! E vou tirar isto por que?

      Tu, não sei porque farias isso. Eu não faria isso de certeza, pois considero que cada ser humano é livre para viver da forma que lhe for mais agradável. No entanto nada me obriga a não olhar para essas pessoas, a tenter perceber o fundamento das suas crenças, perceber a repercussão que essas crenças podem ter na sociedade, tecer os meus raciocínios e formar a minha opinião. É isso que faço.

      Pra que? Chama-las de fundamentalistas?

      Se elas forem fundamentalistas, pensar ou dizer que são fundamentalistas é uma questão de coerência.

      Convencer um moço lá do sertão que Deus é uma mentira? Uma ilusão?

      Isso é a mesma coisa que tentar convencer a minha tia de 93 anos que Deus não existe.

      Pra fazer bem a quem?

      Talvez a ele próprio.

      O que eu poderia dar de sustento a ele, se há nele a firme necessidade de guiar-se assim?

      Como a minha espiritualidade não passa por crenças em deuses, considero que Deus não é alimento nenhum. Talvez uma melhor educação, livros para ler, jogos didáticos para o PC, e quantos milhares de outras coisas sejam um alimento mais condigno para a alma. Dar ferramentas às pessoas para elas terem do mundo uma visão mais alargada, talvez.

      Não, eu não fiz isso. E jamais faria isto! Minha responsabilidade social não me permite isto.

      A nossa visão de responsabilidade social é diferente. Tu consideras que o silêncio é o certo, já eu considero que a informação é fundamental. Isto não significa que uma é melhor do que a outra, são apenas diferentes.

      Agora eu tenho um final diferente para esta história. Em vez de criar esta coisa de troca de ofensas, o autor bem poderia ter colocado a seguinte frase na velhinha.
      – Bendito seja o Senhor, que através de um anjo, proveste minha casa de alimentos.

      Pois, mas esse final não existe no fundamentalismo, amiga, que, ao fim e ao cabo é o que a anedota quer demonstrar. Se a história fosse apenas uma historinha avulso, penso que o teu final era perfeito, mas infelizmente não é, é mesmo uma ilustração para o conceito de fundamentalismo.

      Afinal de contas, o “produto” da fé tem suas formas de manifestar. Nem que seja incomodando um ateu.

      Os ateus não ficam incomodados com os crentes, acredita em mim, e muito menos com a fé. Incomodam-se muito mais com os malefícios que as organizações religiosas provocam nas sociedades, do que com cada um dos indivíduos que creem em Deus.

      No finalzinho de tudo vou com você ao descortinar a base das guerras santas.

      É, não é?

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      • É por ai. É uma conversa que não terá fim. Ainda mais, quando eu erro no português e não consigo corrigi-lo. rsrsrsrs
        Mas, vamos lá. O grande problema que vejo nos que creem cegamente é que são usados. Assim, como em qualquer situação. Na minha opinião, Deus ou deuses não existem até o avião começar a cair.

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        • Pois esse é um ponto muito interessante da questão. Eu também penso como tu, as pessoas usam a comunidade religiosa para satisfazer a sua necessidade de espiritualidade e depois, sem se aperceberem, são usadas pelos lideres religiosos para fins bem menos louváveis.

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  2. Luisa,

    Ri muito com a velhinha chamando o vizinho de satanás…

    Acredito que a religião, qualquer uma, quando exercida de uma forma dogmática e fundamentalistas, tiram a religiosidade e o sentimento de solidariedade dos fanáticos.

    Pessoalmente acho os que se intitulam ateus mais solidários e desapegados de bens materiais e rituais amortecedores dos desejos e buscas de soluções coletivas. Já fui tachada de emissária do diabo mais de uma vez… rsrs

    Não tenho religião. Gosto de não ter religião. Não gosto de fundamentalismo, seja de que espécie for.

    Além de serem “santas”, as guerras, também, são pelo domínio das mentes, terras e recursos naturais e, capital.

    Um abraço.

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    • Olá Beth,
      Muito obrigada pela tua presença e comentário.
      Sabes eu penso que as guerras santas são tudo menos santas, no entanto quem as faz no campo de batalha pensa que sim, embora quem as manda fazer saiba que não.
      Um abraço.

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  3. Oi Luisa.

    Ahahahaha, adorei o texto.
    Eu acredito que qualquer intolerância é burra, seja a de um religioso que acha estar acima do bem e do mal, acredita que todos os demais vão para o inferno, esquecendo-se de que também é humano e, portanto, também comete falhas. Como acredito que o ateu que acha que é inteligente porque tem visão enquanto o crente, crente no sentido de acreditar, de ter fé, não passa de um ignorante. Ora, quem poderá dizer que é detentor da verdade absoluta? É preciso viver respeitando a postura alheia… com fé ou sem ela!
    Questão de ponto de vista, esse é o meu. Independente disso, adorei o humor e a crítica que, juntos, tornam seu texto prazeroso de ler.
    Parabéns!

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  4. Moral e ética significam “costume”. Vivemos sob a vigência de costumes religiosos. Daí a grande dificuldade de se fazer perceber outro ponto de vista além do usual, por mais ilustrativa que seja a intenção, como um ato de consciente responsabilidade social. Qualquer outro ato diferente há de ser duramente rejeitado. A ideia religiosa é essa. Gostei, Luísa.

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