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Ave Caesar, morituri te salutant

Gladiadores

“Ave Caesar, morituri te salutant!”

Este era o grito dos gladiadores que, alinhados na arena, olhavam com orgulho – talvez com saudades do tempo em que eram livres e tinham filhos e esposas – o vazio da morte através da imponente figura de César, com plena consciência que aquele poderia ser o seu último grito antes da agonia final. Imagino-os a agradecer os aplausos envolvidos pelos gritos histéricos da multidão sedenta de sangue, que enchia o elegante coliseu de Roma, ansiosos para que o combate começasse e a adrenalina substituísse a visão pavorosa da certeza da morte. Esta, para ser boa, teria que ser rápida.

“Ave César, os que vão morrer saúdam-te!”

Morituri em português significa literalmente “aqueles que vão morrer” ou “os que vão morrer”. Ao fim e ao cabo somo todos nós, os vivos, que são morituri. Mas ao contrário dos gladiadores fingimos que a morte é um acontecimento vago e distante, falamos dela baixinho sussurrando metáforas, como se o silêncio a espantasse. Morte é uma palavra vazia, fria, desconcertante e por isso nós, os morituri da atualidade, preferimos imaginá-la adormecida e para não a acordarmos nos nossos espíritos medrosos e supersticiosos, não a pronunciamos.

Somos morituri! Neste último minuto, em todo o mundo morreram 109 pessoas.* Não sabemos porque morreram, mas podemos dizer com rigor que antes de morrerem estavam vivas, eram os morituri de há um minuto e um segundo atrás.

A morte deveria ser cantada, não para a afugentarmos mas para a percebermos, para nos percebermos, pois penso que ao tomarmos consciência de que fazemos parte do mundo natural, tal como uma estrela ou uma melancia, talvez a nossa visão do mundo se alargasse e chegasse a todos os lugares onde outros seres vivos precisam da nossa ajuda. Sejam pessoas, animais, mares ou florestas.

Pelo conhecimento que possuímos até ao momento, os seres humanos são os únicos seres vivos que têm consciência da morte, os únicos que se atormentam com ela, os únicos que se iludem fingindo que ela é apenas uma palavra vã, sem qualquer valor nos lugares onde imaginam que vão continuar a vida, depois da morte acontecer. Esta forma de pensamento arrasta consigo a alienação da realidade e a desresponsabilização pelo sofrimento do mundo e do vizinho. Aprisionados no nosso gueto voluntário ignoramos, e somos ignorados, por todos os outros guetos à nossa volta e assim deixamos que todos os tipos de atrocidades aconteçam de consciência tranquila, pois estamos apenas a cumprir com lealdade os mandamentos dos nossos líderes.

Os morituri têm medo da morte embora esta seja a única certeza que nos acompanha ao longo da vida. Mas, mesmo com medo, o conhecimento, a verdadeira consciência de que a morte é uma sequência natural da vida, dá-nos uma dimensão diferente de nós próprios e isso reflete-se na nitidez e cor com que olhamos para os outros e para o mundo.

Não nos iludamos, não serão políticas ou organizações sociais, igrejas ou estados que irão mudar o mundo – esses gostam das coisas como estão e mais, adoram continuar a ter poder para manobrá-las. Somos todos nós, essa massa anónima que povoa o mundo, e enquanto nós nos alienarmos voluntariamente nada mudará, pelo contrário os pilares de novos despotismos multiplicar-se-ão e os antigos serão cimentados.

Ver a vida à luz da morte parece-me um bom começo para quem quer começar a mudar, para quem deseja verdadeiramente contribuir para aqueles que virão depois nós.

Morituri, acordem!

– – – – – – –

* Vi aqui e cronometrei.

 

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8 thoughts on “Ave Caesar, morituri te salutant

  1. Luísa,

    Sua conta “Ave, Caesar,morituri te salutant” é excelente.Mas discordo de você num ponto. Alguns animais têm consciência da morte.
    O medo é uma forma de consciência da própria vulnerabilidade.
    O medo de ser ferido – é uma forma de consciência da morte.
    Não uma forma tão enraizada como a “nossa” forma de estar consciente da morte,Mas não deixa de ser consciência.

    Faço votos de que seu marido se recupere da condição de alcoólatra – ele frequenta os alcoólatras anônimos? Dizem que funciona para muitos.

    José Elias

    Liked by 1 person

    • José Elias, boa tarde!

      Primeiro gostaria de dizer-lhe que o meu marido não é alcoólico, pelo contrário é daquelas pessoas que só bebe para “brindar” em festas de anos. O título do blog não é ilustrativo da minha vida pessoal. 😀

      Quanto aos animais terem medo da morte, sabe que eu pensei nisso que diz, no facto do sofrimento ser alguma forma de consciência da morte. Mas como não tinha a certeza e para esta análise isso não era importante, visto os animais não terem responsabilidade social, não o referi, até porque de facto não sabia, só tinha imaginado essa questão como possível.

      Muito obrigada pela sua exposição.

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  2. Você foi fundo e tocou na ferida. Não sei, não creio numa mudança, as pessoas costumam desejar sim, mas querem que o outro dê o passo inicial, esperam para ver no que vai dar primeiro, aí tudo continua do mesmo modo. E aqueles que dão o primeiro passo, sem o incentivo dos demais acabam por perder o foco. Posso estar equivocada e adoraria estar, mas acredito nisso.
    Também acho, a massa anônima que povoa o mundo é quem deveria mudar.
    Beijo!

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    • Sabes Sandra, infelizmente também penso que tens razão.
      Na minha opinião o que tem que mudar são os costumes, mas esses são muito difíceis de se alterarem. É preciso uma grande consciencialização do social e para isso acontecer (ou ir acontecendo), só com uma educação de qualidade que chegue a todas as pessoas.
      Beijos!

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