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Sobre o comportamento machista

Nota introdutória

Longe de ser mais um grito contra o machismo, os seus caprichos, a sua atuação cabotina, a sua intolerável tacanhez, a sua visão reacionária, o presente texto pretende ser uma manifestação de solidariedade a todas as mulheres do mundo, a voz cansada mas firme de uma mulher que sabe o significado de viver num mundo de homens fixes, educados sob a carapaça dos costumes judeo-cristãos, tão brejeiros, tão poderosos, tão arcaicos, tão antigos que alguns têm mais de três mil anos. Esta é que é a verdade!

Os machos, sua vida e obra

A Terra está cheia de sons harmoniosos, jardins floridos, cidades caóticas, florestas exuberantes, cacofonias abjetas, desertos secos e, por toda a parte, há muitas espécies de machos. Cito, por exemplo, os machos Panthera leo aos quais chamamos leões, que se espalham por vários cantos de África; os machos homo sapiens sapiens aos quais habitualmente chamamos homens, para além de povoarem todo o planeta, têm a mania de meter-se, direta ou indiretamente, na vida de todos os outros machos e na das fémeas suas parceiras, pois acreditam que são os mais poderosos. Na verdade são destes últimos que vamos falar, são estes machos que, embora nasçam com testículos e pénis como os leões, ao contrário destes, lamentavelmente, também aprenderam ao longo dos tempos, a usar aqueles atributos para dominar, humilhar e violar as fémeas e crianças da sua espécie. Mas esta é a história triste de machos que não nos interessam para já.

Texto propriamente dito

Os machos que interessam agora são aqueles fixes e boas pessoas de todos os dias. São aqueles homens anónimos que encontramos no caminho do metro, os vizinhos com quem nos cruzamos no elevador, os colegas de trabalho sempre prontos a trocar o pneu furado dos nossos carros, os nossos cunhados, amigos, irmãos, pais, e os nossos queridos namorados, amantes e maridos, companheiros de toda uma vida, ou de parte dela.

Um macho adulto é, sem dúvida, um futuro velhinho, pelo que merece todo o nosso respeito e até uma certa dose de simpatia, particularmente se nos lembrarmos que um macho adulto é também um bebé do passado. Isso mesmo! Aquelas criaturas com quinze quilos de peso a mais, que se sentam em frente à televisão com o telecomando numa mão e uma cerveja na outra, cujas frontes começam a branquear e fazem coisas interessantes de macho, como por exemplo ter sobre as mulheres ideias sem pés nem cabeça – loiras são boas, mas são burras, ou então, uma mulher que se mete na conversa de machos, anda à procura de sexo -, já foram amorosos pequerruchos de pernas gordinhas e bochechas rosadas, que faziam xixi na fralda e bolsavam no colo da mãe. Impossível não nos comovermos com esta visão ternurenta!

Após uma observação cuidada verificamos que, só após um grande esforço e determinação se conseguem distinguir os machos entre si, no que respeita ao comportamento. Salvo raríssimas exceções comportam-se todos de forma igualmente incoerente; por exemplo, detestam perguntar o caminho quando estão perdidos numa estrada secundária, no meio caminho entre Lisboa e Freixo de Espada à Cinta. Eles negarão este facto por simples coerência com a sua incoerência, mas nós sabemos por experiência própria, do que falamos.

Como todos sabemos os costumes são diferentes das regras e leis das sociedades, enquanto estas são indiferentemente aplicáveis a todos os machos, aqueles variam de macho para macho consoante o grau com que os abraçam. Há costumes que são sangrentos e perigosos, como o costume de matar pela honra e há costumes que são persistentes e menos perigosos, como o costume de considerar que a lida da casa é obrigação das mulheres. Os machos costumam abraçar este último com muita garra, tal como aquele costume piroso e rocambolesco de argumentar de forma insultuosa, quando uma mulher o confronta com a incoerência dos seus próprios argumentos. Foi o que aconteceu na história que se segue.

Era uma vez um macho muito macho que estava com outros machos a discutir sobre a homossexualidade. Diziam eles de sua justiça:

1º homem – Foi uma das poucas vezes que concordei em gênero, número e grau com um ateu declarado! E também me diverti.

Esta alegre declaração refere-se a uma outra, feita por um eminente cineasta e jornalista brasileiro e que dizia “Antigamente o homossexualismo era proibido. Depois passou a ser tolerado. Hoje é aceite como coisa normal. Eu vou-me embora antes que passe a ser obrigatório.”

2º homem – Neste ponto concordo com seu comentário, em gênero, número e grau. Chegamos ao ponto em que Heterossexualidade virou um incrível sinônimo para Homofobia.

Este 2º homem parece que tem a mesma opinião do primeiro, em género, número e grau, mas acrescenta algo verdadeiramente bombástico, considera que se chegou ao ponto em que os heterossexuais são vítimas de homofobia. Vai daí, uma mulher que acha que a declaração do segundo homem é estapafúrdia resolve entrar em cena.

Mulher – Ai sim? Onde, onde?!!… É que essa afirmação dá um excelente furo jornalístico e eu sempre sonhei ser jornalista, assim uma mistura de Marguerite Higgins com paparazzi. Conte lá onde é que os heterossexuais são discriminados por serem heterossexuais? Não vale falar-me de ilhas perdidas onde a maioria da população são homossexuais, nem dum caso particular, tipo, o seu vizinho que foi a um bar de gays…

Ao que parece, a mulher está-se nas tintas para os costumes instituídos, senão tinha-se remetido à frescura perfumada do gineceu e optado por concentrar-se nas malhas do crochet. Para simplificar, no fundo, no fundo o que a chocou foi a leveza com que o macho, acérrimo crítico da discriminação religiosa, que escreve longos textos sobre a xenofobia, mentiras, discriminação e engodos da bíblia, o maior manual de costumes que conhecemos, maus como disse Saramago, mas mesmo assim o maior, disse uma mentira crassa, ou seja que se tinha chegado ao ponto em que os heterossexuais eram discriminados por serem heterossexuais.

3º homem – Entendi que o 2º homem quis dizer; a continuar essa loucura, nós heterossexuais, passaremos a ser perseguidos, por homofobia. O meu amigo é satírico, não ponhas ao pé da letra o que ele fala.

Um terceiro homem chega em reforço para o segundo macho. Ainda não se sabe porquê, mas os machos justificam-se sempre uns aos outros, deve ser algum instinto proteção do género, ou instinto de agressividade ao género oposto, sabe-se lá!…

2º homem (em resposta à pergunta da mulher) disse:
Sabe . . .
Não estou entendendo o motivo de sua implicância comigo…
Ou será que já estou começando a entender… (?…)
Não sei mulher, mas, desse jeito, vou acabar me apaixonando por você…
É casada?
Tem compromisso com alguém.
Se quiser me escrever algo diferente fora da comunidade…
Meu e-mail: 2ºhomem@yahoo.com.br
Ah! Já ia me esquecendo!
(Se vc não tiver nenhum preconceito contra heterossexuais, é claro.)
Sou sozinho, descompromissado, sou Hétero, sou ateu, sou escritor, e estou mesmo a procura de meu grande amor; a minha “Pilar del Rio”.
Se estiver mesmo apaixonada por mim, por favor, me dê um sinal…
Implique com o que eu escrevo, só mais uma vez…

Como se pode ver, a resposta do 2º homem nada tem a ver com a pergunta da mulher. É completamente desconexa e despropositada e como não se consegue encaixar numa sequência lógica do argumento que a motivou, talvez seja uma daquelas incoerências dos machos que ninguém sabe donde surgem, ou então tem diretamente a ver com os costumes, o que não é de todo descabido.

O facto é que este caso não é isolado, ouvem-se ditos e lidos que nos fazem crer que outras mulheres já obtiveram respostas idênticas para argumentos onde não as puderam encaixar. Neste caso concreto, o macho em questão não sabendo em que parte do mundo é que os heterossexuais são discriminados pela sua heterossexualidade, uma vez que tal afirmação só pode ter sido gerada na sua imaginação, de acordo com os costumes que abraça e tais costumes não lhe permitem a naturalidade do erro, abriu a camisa e mostrou o peito enquanto segurava os testículos com uma das mãos num gesto obsceno, que é como quem diz, respondeu à mulher da forma descrita acima. Ora bolas, macho que é macho tem que saber meter as mulheres no seu lugar!

A mulher remeteu-se ao silêncio, não porque os costumes assim o exigem, mas porque sentiu uma das maiores vergonhas da sua vida: ser exposta publicamente, sem qualquer razão, apenas e simplesmente por ser mulher. Sim é verdade, apenas por ser mulher, não estão a ver este macho tão macho a responder daquela forma a outro macho que criticasse o seu argumento, pois não? Pois é…

Todos os machos presentes naquela conversa acharam banal a resposta do 2º homem, como se costuma dizer, quem vê algo deplorável e cala é porque consente, ou seja, faz parte dos costumes de todos eles pensarem que as mulheres, só porque são mulheres podem ser ridicularizadas publicamente.

Se pensarmos, por exemplo, que as mulheres islâmicas são apedrejadas publicamente pelos machos islâmicos por dá cá aquela palha, poderemos dizer que a mulher desta história teve muita sorte, pois, no orgulhoso ocidente da igualdade do género os machos já não apedrejam mulheres, até porque tal ato é punido por lei, mas sentem perfeitamente justificada a sua arrogância de macho para lhes dirigir insinuações ofensivas publicamente, atendendo apenas e só aos costumes caducos que, curiosamente, são os mesmos que motivam o apedrejar dos primeiros machos.

Pensem nisso homens fixes.

Fim

 

 

2 thoughts on “Sobre o comportamento machista

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